impressões do seminário, 4 nov 2017

Alam me convidou para transcrever o relato do meu seminário, de quase 3 anos atrás. Relendo agora, fiquei com a sensação que quando escrevi estava tentando falar conclusões bonitas, de quem entendeu o curso. Tentando sintetizar, reunir as coisas que pensei meio em uma teoria geral, qualquer coisa assim, e aí não tava falando exatamente do que tava sentindo. Bate um sentimento ruim, de vergonha, acho meio brega eu tentando falar grandioso assim. Me deixou pensando um pouco por que vem essa vontade de falar complicado, medo de falar como tá mesmo, de onde vem isso.

Sugestão era de escrever respondendo quais as motivações para fazer o seminário, minhas impressões, coisas percebidas, refletidas e pensadas, e um “daqui pra frente”.

O Miguel me recomendou o curso no final do 3º ano do Médio. À época, não vim. Depois de vir aqui na Vila com ele para um ensaio da turma de teatro, percebi que esse lugar tem muitas coisas que eu sinto falta na minha vida e no meu cotidiano. Uma ligação despreocupada entre as pessoas, ligações genuínas e uma conexão mais estável e tranquila com e corpo e a natureza.

Não fazia ideia concreta do que seria abordado no curso, mas sabia que era algo na linha do que estava procurando. Vim para cá, enfim, em busca de uma semana aberto a meus próprios sentimentos e sua exposição sem ódio e sem medo para o outro.

Um dia há alguns meses acordei de manhã com uma ideia fixa: queria viver fazendo uma antropologia da mente, sentindo seus fenômenos, sem julgá-los, só entrando em contato com eles, como faz o antropólogo em um povo distante. Isso é o que eu buscava.

Minhas impressões foram várias.

Uma percepção muito importante foi como meu egocentrismo é a origem de muitas de minhas inquietações. Percebi que muitas vezes não me abro ao outro e a meus próprios sentimentos por estar em uma busca frenética de um caminho certo, que me leve ao “sucesso”, no sentido de me realizar plenamente como pessoa, independente de meus arredores.

Nesse sentido, ficar pensando ansiosamente em algumas questões (estou estudando o curso certo? o que deveria fazer da vida?) me segurou de imergir em alguns momentos. Ao mesmo tempo, lidar com minha cabeça nessas questões me mostrou muitas coisas. Eu sou muito maior do que a pessoa que pensa sobre mim, essa identidade que eu imagino na verdade é só um hábito de pensamento, e a mente não funciona por meio de revoluções, só de hábitos. Uma mudança no meu jeito de pensar é só olhar para outro lado, não uma questão de mudar forçosamente algo que existe. Lembrar que a vida é muito e a vida é transitória, e sentir isso na prática, é um exercício que quero guardar comigo como bússola permanente.

Percebi que sou sempre ativo e o passado não existe. Muitas vezes me prendo em ideias várias, medos, cobranças de fora imaginárias, pensamentos de que “eu sou assim”. O curso me mostrou que são ficções a serem superadas lentamente pelo seu abandono apoiado pela observação. Sei que são coisas da minha cabeça.

Saindo daqui, tenho a mente focada em tratar as bobagens que me paralisam com desapego. Percebo mais claramente que as coisas que eu desejo são em relação às pessoas, e pretendo me doar mais aos momentos, tanto recebendo como emitindo.

E saio daqui com ideias de vida prática em incubação. Se nesse momento são projetos, são valores que eu já sabiam serem meus e agora tenho ainda mais certeza, embora agora pensando que o coletivo e a vivência com o outro são mais centrais para sua realização do que eu pensava.

Uma vida calcada nas vontades do coração e em estar junto e relaxado. Provavelmente numa fazenda. Trata-se de uma conjunção de desejos do coração, militância ideológica e realização intelectual que pra mim fica mais claro, pode existir na prática e fica guardado em mim.

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