O que será?

Quando eu vim morar na casa que moro hoje, trouxe comigo a vontade de fazer daqui uma espécie de sede paulistana da rede as one. Quer dizer, queria tanto que fosse um espaço de experimentações para os moradores, quanto aberto a outras pessoas virem fazer reunião, pernoitar, etc. Acredito que nesse um ano que estou aqui, nunca expressei essa vontade diretamente. Tentei fazer pequenas proposições, sugeri um fim de semana de “workshop”, mostrei vídeos de Suzuka, contei da minha experiência no Japão.

Hoje quis escrever sobre isso, porque pela primeira vez aceitei que essa vontade não vai se realizar aqui. Geralmente eu pensaria que é por incapacidade minha de comunicação, de explicar claramente o que é a pesquisa e como ela pode ser revolucionária. Apesar de ser relevante, não penso que seja essa a razão. Olhando para minha trajetória, conheci a Vila em 2013 com o tokkou, participei de alguns concentrados, cozinhas, zeladoria, conhecer a si, conhecer a vida humana, naikan, vipa. Não é que seja muita coisa. Ainda tem vários cursos que não fiz e sei que posso fazer o mesmo várias vezes. O que quero dizer é que um tanto de coisa foi feita no sentido de pensar, ouvir, expor, sentar em roda, ler o mesmo texto, fazer comida junto, limpar junto, ser ouvida. A partir daí, se construiu em mim a vontade de praticamente viver dessa maneira. Então eu falo que quero viver assim para quem nunca teve essa experiência e me surpreendo por não ser compreendida. Não me sinto ouvida ou aceita, questiono, provoco, compro discussões, argumento, e nada. Algo está sendo comunicado, com certeza, há algum diálogo, mas quais são as condições concretas deu ser compreendida por eles?

A forma como recebem minha proposta é mais ou menos a seguinte: você quer que eu pegue o pouco tempo que sobrou dos dois empregos que eu tenho para conversar sobre sentimento e não chegar em lugar nenhum? Ou então: você quer dizer que cada um pode falar e fazer o que quiser e você não acha que isso vai reproduzir as desigualdades que internalizamos até hoje, como por exemplo a desigualdade de gênero (o homem trabalha, a mulher cozinha e limpa)? São questões relevantes. É como se eu estivesse pedindo para eles abrirem mão dos alicerces que sustentam a rotina minimamente no lugar. O que recebo de volta é um alerta: “Mari, esses alicerces já são precários, você ainda quer tirar eles daqui? De jeito nenhum, por favor, para de nos desestabilizar”. Eu entendo, também quero me sentir segura e estável em meio às instabilidades da sociedade e da vida. Não apenas sentir, mas estar realmente provida de amparo. Por isso, também percebo a radicalidade – eu digo radicalidade, mas me dizem ingenuidade – da proposta: ao invés de se proteger uns dos outros, se expor uns aos outros. O que será que será?

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