Filosofada Pos Naikan [06/09/2020]

Serah que o estado de iluminação = estado de coração satisfeito?

É apenas uma conversa sobre minhas sensações, mas após sair do Naikan tem um sentimento de plenitude/satisfação muito grande.

Pode acontecer qualquer coisa.

As pessoas podem fazer qualquer coisa. Eu posso fazer qualquer coisa. Não preciso de nada em especial. Está tudo bem como esta. Um estado de satisfação.
Ao ir passando o tempo hoje fiquei observando como que este estado vai desaparecendo.

Em várias cenas do dia a dia vou reagindo da maneira que meu hábito de pensar já está formado dentro de mim. Em certo momento a cabeça já voltou a pensar um monte de coisas. 

Essa maneira de pensar é baseada praticamente em pensamentos como: vendo coisas que estão faltando/ coisas que não devem ser feitas/ coisas ruins/ criticando as ações e gestos das outras pessoas/ sempre com o olho para o que acontece fora do Eu.

Durante o Naikan acho que tem uma tentativa olhar objetivamente e conhecer a relação das pessoas através das perguntas: o que a pessoa fez por mim? o que fiz para a pessoa? quais problemas e preocupações eu causei.

Para isso se usa o Eu, mas ele não é o centro e também não é vítima.

Ou então quando não pesquisa a partir disso, tenta-se olhar como estava meu estado naquele momento, mas apenas olhar. Acho que por pensar que eh coisa do passado consegue se tomar uma distancia da situação e não surge tão forte uma vontade de mudar, querer resolver o sentimento, fica mais fácil apenas olhar como foi.

Agora penso as coisas não devem ser como são e fico com vontade de resolver isso/satisfazer isso, por isso acabo não conseguindo me satisfazer.
Se estiver tudo bem agora, se tiver uma maneira de pensar que consegue apenas olhar para o que está acontecendo, acho que há satisfação. 

Se isso acontecer pode aceitar tudo que acontece dentro de mim e em volta, será esse o estado que chamam de iluminação?

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Impressoes Naikan

Dessa vez fazendo naikan teve dois grandes temas bem distintos, um primeiro que eh esse naikan do que as pessoas fizeram por mim, como retribui, quais os problemas que causei. Na segunda metade da semana fiz um naikan olhando para minha historia a partir dos pontos de vista de ter mentido para mim mesmo, ter escondido meus sentimentos de mim e dos outros, ter agido me preocupando com o que os outros pensariam.

Olhando para a relacao com a minha Mae, dessa vez consegui deixar mais de lado meu julgamento sobre as decisoes dela e colocar o foco no sentimento dela, de qual sentimento ela tomou cada acao. Por exemplo, quando penso que ela me colocou no estudo da igreja, como nao gosto da igreja, nao me vinha uma recordacao boa, mas tentando deixar o que penso de lado, olhando para o sentimento dela, posso sentir que ela fez isso pensando na minha felicidade. Quando comeco a conseguir olhar para tudo que recebi dela a partir deste ponto de vista comeca a ficar mais claro o amor e a preocupacao dela para comigo.

Quando eu tinha 10 anos de idade mais ou menos nos mudamos de Brasilia para o interior de Sao Paulo. Ela procurou uma escola para mim, escola de ingles, se associou a um clube onde tinha esporte, aulas de musica, grupo de dieta, chegou ateh a apresentar um filho do vizinho para ser meu amigo. Olhando agora, ela preparou totalmente um ambiente com tudo que ela achou que seria importante para eu crescer saudavel, feliz.

Mesmo quando olho os momentos que ela ficou com raiva, deu bronca, chourou, acho que talvez o lugar de origem destes sentimentos era o mesmo das acoes acima. Acho que dessa vez no naikan foi a primeira vez que consegui deixar um pouco de lado meus pensamentos de bom ou ruim, achar que eh obvio que deve ser feito, e consegui olhar um pouco para o que realmente a pessoa tentou fazer por mim, o sentimento como base das acoes.

Olhando a partir deste ponto de vista para as outras pessoas que me relacionei as vez mesmo que por um instante durante a vida, qual o sentimento que permeou essa minha relacao com a pessoa, por que ela fez isso por mim, por que eu fiz isso por ela?

Lembrei de pessoas como o motorista do onibus da escola de quando eu era pequenino, ele sempre sorrindo.

Uma vez que me perdi voltando da escola para casa entrei em uma loja onde a moca me deu agua e ligou para minha casa.

O porteiro/zelador da escola quando eu era adolescente, a maneira como ele cuidava das criancas.

A empregada da casa da minha tia, a maneira como ela cuidava da casa e de mim e do meu primo.

Quando olho por exemplo para a Silvia (empregada da casa da minha tia), olhando a maneira como ela cuidava da gente, como ela preparava a comida, dah para sentir o sentimento de carinho dela ao fazer as coisas. Ao imaginar ela fazendo as memas coisas na propria casa dela nao imagino muita diferenca na maneira dela fazer. Acho que naquela hora no momento de cada acao, nao tem muita relacao se eh trabalho, se eh familia, acho que naquela hora se manifesta a relacao de pessoa com o pessoa. O sentimento de pessoa para pessoa. A coisa mais essencial que parece existir em cada um.

A segunda parte do naikan foi olhando para mim historia a partir do tema das mentiras, se agi pensando no que os outros pensariam, as vezes que escondi meu sentimento.

Acho que quando eu tinha uns 12 anos meu primo me perguntou se eu ja tinha ficado com alguem, eu menti e falei 3 vezes ja. Eu lembro que durante e o colegial e ateh a faculdade foi uma coisa que sempre me preocupei em relacao aos amigos em volta. Achava que para ser aceito ou bem visto precisava estar ficando com as pessoas, e olhando agora o quanto me movi indo em festas, fazendo coisas que nao queria, tentando mostrar para os outros que eu estava fazendo como todo mundo, que eu era “normal“. Olhando agora para isso por mais que ouvisse coisas/ palavras das outras pessoas sobre esse assunto, o tamanho que isso tomou dentro de mim nao quer dizer que era o mesmo dentro das outras pessoas. A maneira que me preocupava com isso nao quer dizer que era a maneira com que as outras pessoas se preocupavam, que isso seria uma condicao para ser aceito, ter amigos, me divertir.

Acho que naquela hora poderia ter dito para ele, ainda nao fiquei com ninguem, mas tenho vontade, me ajuda? Poderia ter somente aberto o coracao como estava na hora.

Olhando para esse exemplo, coisas que tomo hoje no dia a dia sobre como as pessoas vao pensar sobre mim, sobre um Eu que precisa ser assim ou assado, tentando me proteger, mostrar algo que nao eh. Fico pensando o quanto serah que isso eh realmente importante para as pessoas que estou me preocupando, quando que isso tambem serah importante para mim daqui uns dias, meses, anos?

Acho que desde de pequeno tive uma certa dificuldade em mostrar meu sentimento, minha emocao, o que exatamente estou pensando naquela hora. Lembro uma vez que comecei uma escola tecnica e depois de umas duas semanas quis desistir. Naquela vez o que falei para minha Mae foi: se eu for nessa escola de manha a tarde vou estar cansado para a outra escola. Mas acho que o que realmente estava sentindo era uma dificuldade em me dar bem com os outros alunos de la, era um pessoal mais velho que eu, que ja trabalhava, nao conseguia me conectar ao mundo deles logo de cara e me sentia triste ao estar la. Por que serah que apenas nao falei como estava naquela hora?

Lembro de minha Mae falar uma vez para algumas pessoas: o Diego eh inteligente. Ou entao meu pai sempre falava: eu nunca entrei numa briga. Eu lembro que essas palavras entraram muito forte em mim e ao ouvir isso pensei que nao poderia brigar com as outras pessoas, ou que deveria sempre me esforcar para manter uma imagem de pessoa inteligente.

Acho que especialmente no caso dos meus pais e familia me preocupei muito com que pensam de mim, qual a imagem que tem sobre mim e tomei muitas acoes a partir disso.

Por exemplo no caso da igreja, desde pequeno eu nao queria ir. Eu acho que eu poderia ter feito como no caso do alcool que mesmo minha Mae nao gostando eu fui tomar escondido, por que no caso da igreja eu nao briguei e deixei de ir? Acho que era uma preocupacao em como seria visto pelos meus pais, como seria minha imagem perante eles. Talvez o alcool eu fiz por que achei que eles nao saberiam, nao iria interferir na minha maneira de ser visto.

Fazendo essa regressao em varias fazes da vida em varias cenas praticas, senti que foi ficando um pouco mais facil olhar para mim o que acontece agora da maneira como estah acontecendo. Aceitar o que esta acontecendo da maneira como eh. Acho que a partir de poder olhar o Eu como estah e tendo em vista como quero ser, qual tipo de relacao quero ter com as pessoas fica facil de ver o caminho a seguir.

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Relato sobre meu Naikan

10/07/2020

As imagens internas nos acompanham a vida toda, e muitas das minhas imagens internas são elaboração de acontecimentos. Pude perceber, no Niakan, quais são esses acontecimentos reais, localizando-os no espaço e na linha do tempo da minha vida.
No início desse ano eu fiz uma massagem, e o terapeuta localizou no meu corpo pontos onde a energia não fluía bem, e isso tem a ver com alguns acontecimentos da minha vida, coisas que ficaram marcadas”negativamente”, e a orientação dele foi que eu voltasse pra esse acontecimentos e lançasse bons conceitos, justamente porque eu não tinha “lançado” bons conceitos é eles ficaram marcados. Eu entendi abstratamente o que ele disse, mas não sabia como fazer isso. Durante o naikan, pelo simples fato de me por em relação as memórias fazendo as 3 perguntas, eu me peguei “lançando bons conceitos”.
Quando minha memória passava pelos fatos muita coisa aparecia, emoções, sentimentos bons e ruins, mas colocar o eu em relação a uma pessoa e localizar um espaço, um tempo e procurar ações concretas que ela fez por mim, me ajudou a reconhecer o que era do campo das emoções, o que era coisas que eu considerava concretas, mas que já era do campo do pensamento. O simples direcionamento que as perguntas dão me ajudou a trazer coisas boas e a reconhecer a minha própria história sem interpretações.
Percebi que emoções muito fortes, fossem elas positivas ou negativas, me atrapalhavam enxergar com clareza as ações de certos momentos. E que muitas vezes algo simples feito por alguém eu não considerava algo relevante, porque eu já estava cheia de interpretações sobre como as coisas devem funcionar e de como as pessoas devem agir, mas nesses dias de naikan eu senti gratidão por pequenas coisas, e reconheci o fato de nem sempre ter sido grata na mesma proporção das ações feitas por mim. Pequenas ações garantem a vida!!!
Fiquei com a sensação de que as coisas vão sempre acontecer e algumas imagens vão surgir na mente, e que é importante reconhecer e ordenar essas imagens, apenas. Apenas isso! O “eu” acontece em relação, e o “eu” do outro também, mas essas relações não são dadas… elas acontecem porque as pessoas alimentam essa relação, e olhar pra isso me fez perceber a beleza disso.
Examinar o eu me deixou muito concentrada, foram poucas as vezes que me distrai, e as vezes que me distraia era com pensamentos aleatórios sobre o futuro, ou porque me senti insegura com algo que pensei. Eu gostaria de manter esse estado de concentração pra sempre.
A segunda vez que examinei o “eu” em relação a minha mãe muitas memórias surgiram no período da infância, imagens que eu não tinha lembrado na primeira investigação, isso foi muito bom porque eu completei algumas lacunas da história da minha vida que antes era sensações amorfas.
Meu pai, meu tio, meu avô, minha avô, o Caio e minha mãe, essas são as pessoas que examinei nesse naikan, cada uma delas me trouxe temperamentos diferentes durante a investigação, a sensação que tenho é como se eu tivesse voltado pros acontecimentos que vivemos. Cada uma delas quando examinadas em relação ao eu me revelou conceitos e pressupostos a que eu estava tendo como reais.
Organizar a história da minha vida interna e me sentir segura para isso é o que ficou marcado da prática do Naikan.

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naikan – 04 a 10 de julho/2020

Relato da minha vivência

Minha motivação para vir fazer o Naikan veio da minha saturação da presença contínua de meu companheiro na minha vida, nesses tempos “pandemônicos”  e também porque me sentia angustiada, ansiosa e mesmo irada às vezes com acontecimentos políticos de dentro e de fora. 

Chegando na Vila Yamaguishi gostei de rever o Alam e a reforma da casa de recepção, para onde foi encaminhada. Como tivemos um tempinho até a chegada da terceira participante, observei os arredores, os aposentos, admirando, olhando o “fora”.

Tivemos depois um encontro para saber o que era o Naikan com Romeu e Alam e um vídeo do Yoshimoto explicando a origem do sistema e como funciona. Pode ser feito concentrado (por 1 semana, como no caso) ou no cotidiano.

Olhar “dentro”, e lembrar fatos concretos envolvendo o eu Virgínia com as pessoas mais próximas, ( uma de cada vez ) desde o meu nascimento até o final da minha relação com essa pessoa, segundo o enfoque:

  • O que ela fez por mim
  • O que eu fiz por ela
  • Que preocupações ou aborrecimentos eu lhe causei

Para facilitar esse exame estávamos eu e minhas duas colegas em quartos individuais e banheiro idem, onde ficaríamos por uma semana isoladas do mundo exterior a não ser com o ouvidor que a cada hora, batia na porta chamando para uma entrevista, feita fora do quarto. A sua função era somente ouvir, sem julgamentos ou palpites. Apenas auxiiando para que o processo da pesquisa se cumprisse adequadamente.

No quarto existia uma cama, um armário, uma mesa com uma cadeira onde se fazia as refeições e um biombo que restringia o espaço do quarto, evitando estímulos visuais dispersores, para facilitar o mergulho nas memórias do período que se estava examinando.

Mesmo quando se ia ao banheiro ou se fazia as refeições, a pesquisa prosseguia. O foco era estar concentrado, sem se perder do Naikan, no período examinado.

Como a mãe é a primeira pessoa com quem todo ser humano se relaciona inicialmente, a pesquisa começa com ela. A mãe.

Chi ! pensei… vai ser difícil não me lembro de nada ! Mas aos poucos fui entrando no túnel do tempo e visitando situações, lugares experiências vividas com ela.  Com relação a pergunta o que ela fez por mim foi mais fácil. Mas o que eu fiz por ela… me mostrou que foi muito pouco e percebi que eu fui muito exigente quanto ao que gostaria que ela me tivesse feito e o que eu fiz, muito pouco. Também sempre pensei nas preocupações que ela me causou e agora pensando nas preocupações que eu causei, me sinto compadecida dessa mãe.  Veio um forte senso de gratidão pela mãe que me deu a vida, que me cuidou como pode, tanto tempo, até que eu pudesse cuidar de mim mesma. Percebi que com a maturidade consegui dar, fazer a ela um pouco mais. E ter consciência de que a vida é preciosa, é curta e não temos tempo para sermos infelizes com nuvens pretas que nós mesmos criamos sobre nossas cabeças.

Como eu sou muito do movimento, não paro quieta, foi difícil ficar nessa cadeira dentro do biombo. Eu levantava, tomava chá, e ia ao banheiro, voltava e sentava. Lembrava que estava de máscara, levantava, tirava a máscara e voltava a sentar dentro do biombo. Levantava, me alongava um pouco e sentava novamente. Ah! que vontade de socar o biombo! … Mais um pouquinho Virgínia, puxa vida que esforço hercúleo para me focar, me concentrar! Às vezes fluía. Parecia realmente que eu deslizava por um túnel de tempo e as paragens aconteciam me retratando as e nas relações. Isso me dava alegria e estímulo para continuar. Quando vinha o Romeu, meu querido ouvidor, eu reportava o que havia examinado e até na minha ansiedade adiantava o próximo período quando então ele me reforçava o foco. O enfoque era restrito, a cada entrevista, à um determinado período. Por exemplo de zero a seis anos, de seis a 12 anos e assim por diante até o falecimento da mãe, no caso.

Depois da mãe veio o pai. Surpreendentemente lembrei de ternos momentos com ele. Ele me fez muitas coisas e eu muito pouco para ele. Essa sensação de pobreza de mim para ele me angustiou. E as preocupações que causei ficaram claras como a figura dele no contexto cultural que vivia.  Inverteu um pouco a crença de que meu pai não foi suficientemente bom para mim ; eu não fui uma filha suficientemente boa para esse pai. Com ou sem culpa ou julgamento mas um amargor e uma tristeza no peito. Uma vontade apertada dentro do meu peito de soltar as amarras do tempo e voar para a liberdade de expressar o meu amor por ele.

Depois do pai veio o sogro, pai do meu falecido marido Furio. O seu Umberto, meu segundo pai. Amoroso, aceitador de mim total. Lembrei do muito que ele me fez. Mas também do muito que eu fiz para ele. Foi equilibrado. Foi amor.

Na sequência, o Furio. Ai, ai, ai !!! Fui muito amada. Mas me vi uma criança mimada na relação com ele. A medida da evolução, no tempo, dessa nossa relação houveram mais trocas equilibradas entre dar e receber. E também quanto as preocupações, houve mais compreensão, mais acolhimento, mais continente afetivo. Percebi que era movida muito pelo desejo, e ele pela mente. Agora o desejo é plena mente.  No sentido de ter aprendido aqui no Naikan o exercício do cérebro profundo, de ir além do reptiliano, dos instintos e desejos imediatistas e compreender objetivamente como as ações repercutem no outro e em mim também. Escolha para ter a consciência. E com isso, a paz.

Depois do pai, o filho. Focalizei a minha relação com o Fabio meu filho do meio (tive três). Também veio muita dor. O que eu fiz. Como eu fiz? Poderia ter feito diferente?? ! !  As preocupações que causei, as reações, as consequências… Se um olhar novo para o passado muda o passado… Se o fato suplanta a fantasia… Se a clareza limpa a alma…  Me sinto encorajada. Para ver, fazer, receber a vida que me resta. Que examinando os anos de 0 a 74 voaram!!!. E provaram que entre sabores e dissabores, tempestades e calmarias, eu vivi intensamente. 

Percebi que as relações são muito, muito mais importantes que as delações. Que a vida consciente e feliz é um equilíbrio entre dar e receber. Saio daqui agradecida pela oportunidade dessa revisão da minha vida, resgatando a minha história, conhecendo a minha história. O que me possibilita viver intensamente o que ainda me resta, no AMOR.

Um ótimo recurso para o auto conhecimento no “concentrado” e providencial para o cotidiano daqui para frente. Além de tudo isso, num ambiente muito agradável. Comida suficiente e equilibrada. Banho delicioso e um ouvidor atento e focado.

Gratidão.

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naikan em maio 2020

Rascunho das coisas que pensei, pesquisei, enxerguei, senti durante a semana fazendo Naikan

O que eu pesquisei
O eu em relação a minha mãe
O eu em relação ao meu pai
O eu em relação ao Isack
Mentiras e disfarces
Coisas recebidas pelas pessoas ao redor

O objetivo do Naikan é alcançar um estado de espírito de viver com felicidade em quaisquer que sejam as circunstâncias exteriores.
Assim eu entendo o que está escrito na orientação.
Quando iniciou o Naikan, não consegui realmente vislumbrar um estado de espírito assim. Questionei a real possibilidade disso, achando que estava sendo colocado o objetivo alto demais. Achei papo filosófico, irreal, somente pessoas que seriam moralmente superiores podiam pensar em algo assim e colocar isso como alcançável, como o velho Sr. Yoshimoto que fala e insiste que precisa entender o quanto foi cuidado e mimado pela mãe, pelo pai, ou pelos avós que muitas vezes tratariam a gente como gatinhos fofos.
Mas também estava disposta a tentar fazer o Naikan deixando de lado as outras experiências com Naikan, me colocando no “Eu não sei, sou ignorante e aprendiz”.
Eu coloquei como tema que eu queria pesquisar o eu em relação à minha mãe pois mesmo depois de várias vezes tentando fazer essa pesquisa em outros Naikans eu falei que existia em mim uma barreira, uma não-aceitação da minha mãe da minha parte. Depois do último Curso para realizar o Um comecei a entender que barreiras e não-aceitação é algo irreal e não em conformidade com a razão. Um estado não-saudável, desviado do original e essencial. E que para isso tinha uma causa que podia ser removida fazendo o esclarecimento dos fatos, da realidade, do original e essencial.

Anotações:
Em relação a minha mãe
Ela me deu a vida como uma jovem de apenas 22 anos e assumiu me criar, junto com meu pai igualmente jovem.
Ela ficou grávida de mim e não foi planejado.
Às pressas casou com meu pai, eu nasci e ela começou a viver em função de mim.
Ela e meu pai eram jovens sem dinheiro, mas mesmo assim nunca faltou nada.
Ela costurou as minhas roupas, e não foram roupas quaisquer, ela caprichou com os detalhes, fez enfeites bonitos.
Ela penteou meu cabelo sempre antes de ir para a escola.
Ela veio andando comigo no primeiro dia do jardim de infância, tendo que levar junto o meu pequeno irmão e minha irmã que tinha acabado de nascer.
Ela comprou as pantufas para usar na sala de aula e a roupa para educação física.
Ela me levou para esquiar, me puxando para cima das colinas para eu poder deslizar para baixo, inúmeras vezes. Ela deve ter passado muito frio enquanto eu e meu irmão nos divertíamos. Minha mãe mesma não sabia esquiar. Na infância dela não tinha folga econômica para saindo por aí, passear, esquiar. Mas para mim ela comprou esquis, os sapatos de esquiar, as roupas quentinhas, tricotou as luvas e os gorros. Quando passei frio, ela esquentou as minhas mãos esfregando com as mãos dela. Quando crescemos, junto com o pai também esquiador fomos esquiar em lugares mais sofisticados, eram caros e para economizar a minha mãe fazia comida para levar. Sempre tinha caldo salagadinho e quente de legumes para tomar em uma garrafa térmica e sanduíches, maçãs e chocolates para comer. Enquanto ela ficava esperando no carro, a gente saia para esquiar e voltamos para tomar caldo quente e comer sanduíches. Minha mãe deve ter passado muito frio e deve ter sido muito tedioso para ela. Mas eu queria esquiar e nunca pensei um segundo sequer como seria para a ela ficar esperando a gente voltar da nossa diversão.
Para aumentar a renda da família, ela começou a trabalhar como faxineira na biblioteca municipal as noites quando meu pai podia tomar conta da gente. Ela nunca deixou eu e meus irmãos sozinhos.
Quando eu voltava da escola, ela sempre estava esperando na janela da cozinha para ver se eu podia atravessar a rua muito movimentada em frente ao prédio com segurança.
Quando eu roubei umas coisas numa loja, ela foi comigo para devolver e me ajudou a colocar de volta sem chamar a atenção. Ela deve ter sentido muito medo de ser pego. Mesmo assim ela não me repreendeu.
E assim a lista das coisas que ela fez para mim é interminável.
Às vezes a minha mãe ficava brava e sem paciência comigo e com meu irmão. Ela não gostava de ter a gente por perto quando ela tinha aquele monte de coisas para fazer, lavar, costurar, consertar as roupas, cozinhar, limpar, fazer geleias e conservas, cuidar ainda da casa da mãe dela como os irmãos solteiros. Minha mãe tinha sempre um padrão de limpeza e ordem muito alto, ela sempre deixava as coisas impecáveis, apesar de ter sido criada numa casa modesta e simples onde nem tinha banheiro com um vaso sanitário, somente um bloco de madeira com um buraco em cima do galinheiro. Somente quando eu já era grandinha que finalmente foi instalado um banheiro moderno da casa da avó.
Minha mãe também deu à luz 4 crianças em 6 anos e perdeu uma dessas crianças com 10 dias de vida por causa de um problema no coração do pequeno.
Será que alguém amparou ela nesses tempos difíceis?
Ela chegou a me contar uma vez que as pessoas tinha falado para ela não ficar triste, que ela já tinha duas crianças e que ela era nova e podia ter mais uma depois da perda. Quando visitei minha mãe quando ela tinha já quase 80 anos, ela falou que não foi concedido a ela um trabalho de luto adequado. Foi umas das poucas vezes que minha mãe se abriu comigo, falando dos sentimentos dela.
Uma outra vez foi quando eu liguei para ela, eu tinha 23 anos e ela 45. Eu perguntei “Mãe, como você está?” e ela respondeu “A vida é uma merda.” Eu era imatura demais para amparar ela, deixando ela falar mais dos sentimentos dela. Acho que rimos juntas, falando “pois é, a vida é assim mesmo.”
No apartamento onde morávamos até eu ter 12 anos, tinha um batedor de tapete, era de plástico, a cor era um rosa pálido. Esse batedor estava pendurado na porta da entrada do apartamento. Minha mãe chegou a usar para bater na gente, mas eu não lembro de momentos concretos. Mas o que eu lembro era que o batedor estava pendurado lá e foi usado como ameaça para a gente não fazer coisas erradas. Eu tinha medo desse batedor. E somente a minha mãe usava. Meu pai nunca bateu em nós crianças pequenas. Então eu criei dentro de mim a imagem que a mãe era brava e sem amor, e que o pai era carinhoso e seguro.

O eu em relação ao meu pai
Desde pequena eu senti carinho pelo pai. Ele era divertido, alegre, esportivo e moderno. Apesar de os primeiros salários ainda curtos, ele trazia sempre as novidades primeiro, tínhamos carro, televisão, tocador de disco antes das outras famílias. Ele tinha muitos amigos, se divertia saindo com eles, bebia demais e chegava a vomitar em casa. Minha mãe ficava implicando com ele, acusando ele de ter uma amante.
Com o tempo ele parou de sair e se tornou um pai de família sério, dirigindo o carro para a casa das avós, para os passeios de domingo e para esquiar em família.
Ele também era muito forte. Ele ajudava na colheita de feno da família da minha mãe e ele era quem carregava as cargas mais pesadas. Eu tinha muito orgulho dele.
Ele começou a se dedicar totalmente ao trabalho dele, o salário dele aumentava e ele usava tudo em função da família, começou a pagar um apartamento para a gente ter mais espaço.
Eu comecei a me interessar por esporte também pela influência dele. Éramos colegas que batiam altos papos sobre jogos de futebol.
Ele tinha orgulho de mim por ter sido boa aluna na escola. Eu nunca senti medo do meu pai.

Assim foi a minha infância.
Nunca faltou nada.
Tinha amor, carinho, dedicação em abundância.
Eu tinha me tornado uma adolescente rebelde e mal educada especialmente com a mãe.
Eu cutucava ela ainda mais quando ela ficava brava. Eu entendo agora que eu fiz isso também porque eu no fundo sabia que ela nunca ia me abandonar. Era uma relação do lado dela inabalável. Eu podia falar coisas horríveis para ela, ela continuava de fazer comida para mim, de lavar a minha roupa e de limpar o meu quarto. Ela tinha uma ideal de mãe e tentou se ajustar o quanto ela podia – nunca deixar de faltar nada, sempre estar presente e dar o melhor de si.
Ela também começou a cuidar de uma amiga com esclerose múltipla com muita dedicação. Eu não entendia porque ela estava fazendo isso. Eu achava que minha mãe tinha que cuidar somente da família.

(Sobre mentiras e disfarces. Sobre coisas recebidas pelas pessoas ao redor. > vou escrever mais depois)

O que eu levo comigo agora desse Naikan é a sensação de ter compreendido um pouco o sentido dessas palavras iniciais da estado de espírito de felicidade em quaisquer que sejam as circunstâncias.
Vendo a minha vida só consigo ver agora a realidade de eu estar do lado de quem recebe, recebe e recebe.
Eu recebi da minha mãe, eu recebi do meu pai, eu continuo recebendo como seu eu fosse aquela criança dependente.
Eu recebo do Isack, amor, carinho, apoio em tudo que eu resolver fazer.
Ele me amparou em todos os momentos que eu me sentia sozinha e confusa.
Do lado dele a nossa relação é inabalável igual da relação dos meus pais, especialmente da minha mãe.
Tudo que eu fizer está sendo proporcionado pelas pessoas ao redor.
Nada é possível eu fazer sozinha.
Sozinha é algo que não existe.

Um outro ponto muito importante é que através desse Naikan eu compreendi melhor sobre “esse foi o meu estado naquele momento”, não tem necessidade de ficar ligando aquele meu estado ou os meus atos naquele momento com o presente. O que foi, foi. O que existe é a vida agora, o que eu quero ser, como eu quero que a vida será. Compreendendo que não existe culpa, nem minha, nem das pessoas, mas que os nossos atos e palavras são manifestações do estado daquele momento que foi se formando pelas influências da sociedade ao redor. A única pergunta é o que eu quero fazer daqui pela frente, que pessoa eu quero ser.

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Naikan – Mentiras e Dissimulações

Vim fazer o Naikan porque há algum tempo vinha percebendo um certo “desajuste” entre minhas vontades e minhas ações. Me percebi cansada de sustentar algumas posturas e máscaras sociais. Dessa forma, examinar minha trajetória a partir de “Mentiras, Dissimulações e Omissões” dava receio, mas parecia necessário para conseguir olhar com calma para aquilo que estava me incomodando.

Para mim o Naikan não te diz “Isto é assim!”, ele te abre um caminho para olhar. E aí você olha para suas memórias, se conecta com as suas sensações, memórias de percepções, percebe suas motivações em dado momento. E essa autonomia para a pesquisa e esse exame “encarnado” é que faz o Naikan ser muito especial para mim. Me faz perceber onde estão os nós.

Um ponto de mudança durante a pesquisa foi quando eu olhei para uma memória e percebi que, naquele momento, eu não estava reagindo ao que estava ali, mas sim, a um comportamento que eu havia adquirido através das minhas percepções. Percebi que era a partir de mim que eu projetava algumas questões. Me vi relacionando e reagindo as minhas próprias percepções e não ao que se apresentava a mim. A partir daí a pesquisa mudou radicalmente. Mudou o direcionamento: em vez de olhar para o “outro”, passei a olhar para o que é que eu tinha captado daquela memória, como isto estava em mim (Daí, bicho, a pesquisa ficou muito louca!).

Comecei a olhar onde estão as memórias de percepções onde eu me apoio para as atitudes de agora. Mudou a forma de eu olhar para as relações humanas e isso parece ser ainda o início de uma pesquisa.

Acredito que consegui olhar um pouco as motivações reais em alguns momentos da minha trajetória. A minha vontade é de continuar pesquisando, trazer o Naikan para o meu dia-a-dia. Será que seria possível? É algo que quero tentar. Também deu vontade de estar mais conectada com o tal do “coração original”. Olhar mais para o que seria isso, para cair menos em posturas automatizadas/engessadas e lembrar com mais frequência das coisas que realmente são importantes para mim. Esse mim expandido. Talvez, esse mim que é Um.

 

Fotos:

1 – Ficção de Lúcia pagando de blogueira

2 – Equipe mara! S2

3 – Eu e Isa quando contamos dos nossos métodos (vassoura e gato) para matar uma barata, em dupla, sem trocar uma palavra, mantendo o protocolo do Naikan

4 – Tradicional biru ou kensan do lúpulo com Alam no pós

 

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Olhando para dentro

***Este é um relato da minha experiência fazendo “Naikan” na Comunidade Rede As One (antiga Vila Yamaguishi), onde já tinha feito o curso mencionado no texto “Flutuando”.

Em 30 de setembro deste ano, cheguei ao salão da Comunidade Rede As One para fazer meu primeiro Naikan.

Cheguei sem sem saber direito o que esperar, mas com muita expectativa em relação ao impacto que o que quer que eu vivenciasse ali teria na minha vida, como costuma ocorrer quando vou para lá.

O que aconteceu foi que um formato de simplicidade persistente, que a princípio não pareceu nada demais, fez as minhas defesas baixarem, abrindo espaço para um reequilíbrio nas minhas memórias que reestruturou tudo que se apoiava sobre elas.

Aqui, agora, reconfigurada de forma tão sutil e, ao mesmo tempo, tão profunda, posso dizer que minhas expectativas foram cumpridas. O Naikan realmente é transformador.

Após uma formação em constelações sistêmicas eu já havia internalizado algo de honra e aceitação à forma como as coisas foram. Um desapego das “reivindicações vitimistas”, por assim dizer. Não como um abandono de mim e das minhas necessidades presentes, mas como expressão de agradecimento por quem eu posso ser hoje graças a tudo o que houve, exatamente como foi.

Naikan me permitiu rever o que se passou e me perguntar: como será que realmente foi? Fora de mim?

Agora me parece que não é nem questão de aceitar tudo como foi, mas de enxergar que a minha percepção do que foi é incompleta. E que, talvez, o que realmente foi seja um pouco diferente da forma como me lembro das coisas sendo. Que houve momentos de dor e confusão, mas que havia outras coisas acontecendo também.

Principalmente, o que eu vejo após resgatar as memórias da minha relação com minha mãe, meu pai, meu marido e minhas irmãs, é o quanto eu fui amada e cuidada como regra na minha existência. Como eu tenho sorte por isso.  E como todo o amor e carinho que eu hoje sou capaz de dar vem daí, dessas sementes que foram, desde sempre, plantadas e regadas e cuidadas dentro de mim.

Eu espero que, no futuro, as minhas crianças tenham de mim memórias estão boas quanto tantas das que eu tenho da minha mãe e do meu pai. Espero que meu marido se lembre de nossa longa história com o mesmo carinho, amor e alegria.

Sou muito grata por todo o caminho que me trouxe até aqui, com todos os seus tropeços, pedras e buracos, e todas as suas flores, frutos e maravilhas. Eu hoje não mudaria nada, porque sou exatamente quem eu quero ser neste momento.

Agradeço pelo privilégio de poder ter feito esse Naikan; agradeço à Escola Scienz e à Rede As One por mais este aprendizado, agradeço em especial ao Romeu e ao Alan, que trabalharam como ouvidores, e à Kaio que, tão talentosamente, preparou as refeições.

Agradeço à minha mãe e ao meu pai por tudo que me ofereceram e continuam a me oferecer, embora eu já tenha o suficiente.

Por fim, agradeço com muito amor ao meu marido Igor, por, como de costume, se dispor a cuidar das nossas crianças sozinho enquanto eu vinha cuidar de mim.

Por um mundo com mais Naikan*.

*”Naikan“, em japonês, significa “observar dentro”.

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Relato Naikan 15-11-2018  

  1. As minhas motivações
    Os desentendimentos e frustrações foram a identificação do momento certo de fazer o Naikan. O método já era conhecido por mim de forma superficial, foi uma indicação de Eraldo mesmo antes de eu ter feito o seminário.
  2. Coisas que pensei, percebi, refleti sobre mim durante a semana do Naikan,
    Percebi  a forma reativa de lidar com os com as situações. Estou no modo automático,  sem colocar consciência nas ações. A investigação durante a semana o me fez identificar padrões de comportamento de auto-defesa, que foram muito prejudicados para situações de problemas. Estes comportamentos afastaram o amparo, o consolo e a solidariedade das pessoas amadas do meu currículo próximo. Durante a semana, os temas objetivos trouxeram lembranças e cura para mágoas e dívidas do passado, e  um convite para investigar fatos paralelos em uma nova abordagem de Naikan. Outra pista sobre um comportamento repetitivo, este autossabotagem, aparece em frequentes episódios relatados durante semana. Sentimentos que conflita diretamente na busca do “Ser Feliz”. Ser feliz integralmente, incondicionalmente, exige que esses mecanismos sejam identificados e bem entendidos. Sem a investigação profunda do “Eu”, estes padrões continuam famintos e prontos para atacar.
  3. Daqui para frente trago a esperança de colocar a consciência em minhas ações. Estarei trabalhando para interpretar o sentimento do outro e ser sensível às condições e limitações que absorvemos ao longo da vida. Insistirei para que minha companheira investigue pelo pelo método para que possamos contribuir para a educação de nossos filhos.
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Impressões Naikan 02/07 a 07/07

A motivação de ter participado ao naikan foi porque quis conhecer em que situações apareceram os sentimentos desconfiança, inferioridade, superioridade, medo, insegurança. Esses eram sentimentos que não estavam claros para mim,  no dia-a-dia eu sentia apenas de forma indistinta de onde vinha. Observava em mim este estado de coração após ter participado no curso para realizar o uno.

Na rotina diária da Academy me percebia que estava me repreendendo a mim, repreendendo a mim dizendo “eu não posso ter esse sentimento” quando tinha sentimentos que não eram confortáveis (medo, insegurança, reações). Acho que tinha um lado de queria ter uma capacidade melhor para me ver objetivamente.

No começo dormia 30 minutos depois de me concentrar por 10 minutos… Mesmo dormindo quase o dia inteiro (e a noite também)  não era o suficiente. É um curso que me dava um bom tempo de sono. Recomendo para quem quiser um bom sono (ops, isso não era principal). Depois de repetir a concentrar e concentrar acho que esse tempo se estendia, mas ainda vou para outros pensamentos. Tinha momentos que não conseguia lembrar mesmo concentrado. Acho houve uma diferença entre tenso ou não…

 

 

De qualquer forma o conteúdo principal fica abaixo.

O que fiz Naikan foi:
Mãe->Pai->Escola e empresa->Mentiras e disfarces->Sentimento de Inferioridade e superioridade-> O que recebi-> Mãe

De modo geral acho que estava tenso até o fim de que queria e devo lembrar de tudo o que recebi.

Quando me pesquisava a mim em relação a minha mãe, me vi aos 10 anos ouvindo de uma pessoa me julgando por estar tomando banho com a minha mãe, então comecei a pensar a não buscar afeto(na verdade só estava tomando essas atitudes quando tinha alguém por perto). Lá estava o Leo deturpando seus sentimentos e suas vontades. Só que na verdade querendo um abraço da minha mãe (Não percebia que queria o abraço, pois os pensamentos de insegurança de ser julgado era maior).

Foi divertido também por enxergar as tendências e hábitos do meu pensamento no tema mentiras e disfarces.
Quando estive no japão aos 13 anos, estudei na escola do japão, e no meu último dia da escola ouvi dizer por um amigo que um outro amigo queria conversar comigo. Estava no meio do caminho de ir embora e o amigo que queria conversar estava na escola. O que eu disse na hora foi “vou voltar a escola e conversar? Muito trampo para voltar, não vou” fingi que nada aconteceu e fui embora. “Muito trampo pra voltar” foi só uma justificativa para mostrar para pessoa que me contou que não levo muito peso ao outro amigo, e também tinha pensamento que era coisa de desesperado por amizade e era  deselegante  ter atitudes de voltar para conversar querendo uma relação com pessoas, isso tudo acreditando piamente que a pessoa que contou também me julgaria dessa forma se voltar, e no fim eu disse: -É muito trampo.
Ao refletir o real sentimento, queria conversar. Quero saber o que esse amigo
queria falar para mim. Estou arrependido.

Me encontro o eu que teme em ser julgado, achando que encontrar com pessoa por minha vontade, ou manter um relacionamento de amizade, bom relacionamento com os pais por minha vontade é mesma coisa que buscar afeto (isso é deselegante).
Vim mantendo uma certa distância com pessoas para não me ferir.

Ouvi que o Naikan era trazer à tona o inconsciente para o consciente. Era um trabalho bem divertido.

Tive a sensação de realmente estava conectado ao mundo o que recebi de cada pessoa, de cada acontecimentos, quando pesquisei o que recebi.
Até achei que iria me iluminar. Quando achei iria iluminar perdi toda a sensação.

Desta vez realmente vi a importância do Naikan para conhecer o real, o fato.
Quanto mais conhece o real, o fato de quanto recebi até chegar até aqui, os sentimentos de insegurança, raiva, maus sentimentos ficam pequenos. A consciência do “Eu” também fica menor.
Tive a real sensação do mecanismo do ScienZ method do processo de focar no coração original uno e meu.

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naikan – observar dentro

内観

SCIEN-Z (Scientific Investigation of Essencial Nature School) – Suzuka – Japão. 31/01 a 06/02/2016 .

1 – Ementa do curso:

O curso consiste na revisão a partir da memoria e reflexão pessoal feita por cada participante, durante 6 dias, nos quais se escolhe livremente, dentro de sua historia de vida, pessoas sobre as quais deseja pesquisar dentro de si, de forma autônoma e individual, sob a ótica de 3 perguntas:

  • O que essa pessoa fez por mim?
  • O que fiz como retribuição?
  • Que problemas ou dificuldades causei a essa pessoa?

A cada dia, são feitas em media 8 entrevistas com intervalo em torno de 1hora para que o participante exponha suas observações internas e reflexões sobre as 3 perguntas, não existem ensinamentos, conselhos, obrigações nem conclusões vindas da parte do entrevistador (ouvidor).

2 – Relato da auto-observação interna

2.1-  Antecedentes:

Em 2008 estive em Suzuka, tive vontade de fazer o Naikan, mas não se viabilizou  naquela ocasião, desde então vim mantendo internamente essa vontade, mas acabei colocando prioridade nas atividades que me envolvo no dia a dia no Brasil e vim adiando minha participação.

Durante esse tempo, sempre achei que seria importante para mim e para as pessoas que convivem comigo, a minha participação e aprofundamento nesta pesquisa interna de minha historia pessoal.

Essa importância se deve a percepção que tive profundos problemas não resolvidos e inconscientes na minha infância e adolescência, sobretudo com minha mãe. Tenho noção que esses problemas do passado, se refletem até hoje nos meus relacionamentos.

Há alguns anos atrás, se iniciou o Naikan na vila yamaguishi no Brasil, mas preferi aguardar uma oportunidade para fazer no Japão, pois achava que teria condições de aprofundar mais fazendo com pessoas fora de meu relacionamento do dia a dia.

2.2 – Ao iniciar o curso:

Mesmo ouvindo as explicações do método e maneira de pesquisar, não sabia como fazer, ao experimentar, não conseguia lembrar e sempre caia no “faz muito tempo, não dá para lembrar” as 3 perguntas pareciam muito pouco para representar o universo de impressões e lembranças que eu tinha registrado na memoria, aquilo que eu já tinha estabelecido de forma generalizada e as conclusões que eu já havia chegado nas analises anteriores sobre minha infância, minha criação e relacionamento familiar.

Encaixar esses registros, dentro das 3 perguntas me pareceu “simplificar demais”  as analises que eu já tinha comigo sobre mim, minha historia, os motivos que levaram a mim e minha mãe a agirem como agimos no passado. Mesmo assim, segui fazendo o esforço de procurar dentro do que conseguia lembrar, respostas para as 3 perguntas simples.

2.3 – Durante o decorrer do curso:

Acho que o esforço de continuar procurando respostas para as 3 perguntas e o  exercício de rever minha historia sobre esse angulo, esse ponto de vista, fez com que aos poucos, fossem se dissolvendo as “coisas ruins” , restando a lembrança de uma impressão carinhosa, o sentimento de um ambiente familiar seguro, aconchegante, no final do 2º dia cheguei a uma constatação: “afinal, até que era uma família normal” comparando com os padrões que eu tinha de como deve ser uma “família normal” , bem diferente daquilo que eu tinha “pré-estabelecido” nos meus registros internos de que minha família era problemática com relações pessoais complicadas, com uma mãe desequilibrada e um pai ausente.

Mesmo assim, não conseguia lembrar muitos detalhes, eram mais impressões, emoções e poucas cenas.

Me espantei ao perceber que eu não fazia a menor ideia do que minha mãe fazia no seu dia a dia quando não estava se relacionando comigo, lembrava de mim, do que pensava, sentia, o que fazia, mas não tinha lembranças das atividades da minha mãe e das outras pessoas da família, muito menos do que essas pessoas pensavam, ou de suas emoções e motivações, esse vácuo permanecia mesmo depois de minha adolescência.

2.3.1 – Impressões mais marcadas:

A revisão e reflexão do que se passava em mim sobre o ponto de vista das 3 perguntas, a respeito de minha mãe, me levou a ver que mesmo não sabendo o que ela fazia, eu tinha um sentimento da  presença dela que me dava segurança , e sentia que ela emanava um carinho em relação a mim, acho que esse “clima” carinhoso e seguro, durou até meus 15 anos.

Ao rever as primeiras fases sobre a pergunta: que transtornos eu causei a ela?, comecei a me interessar pelo: 「porque será que ela me batia? 」「qual o sentimento dela?」「qual eram suas angustias, inseguranças?」「o que se passava dentro dela para chegar ao ponto de me bater?」

Essas perguntas eu já havia me feito antes, mas de outra forma, e eu tinha explicações de bases psicológicas muito bem formuladas sobre isso, teorias que explicavam com palavras do tipo: 「ela projetava em mim a sua insatisfação com relação a meu pai, traumas de infância dela, etc.」, mas diferentemente disso, dessa vez me interessei em ver 「qual era o verdadeiro sentimento dela em relação a mim?, que contrariedade eu causei a ela? 」. Vi um universo que minhas teorias psicológicas frias e rancorosas não podiam alcançar.

Acho que comecei a 「me interessar por ela mesma, como ela é e não pelo que eu achava sobre ela ou como eu desejava que ela fosse」.

Fui revendo também coisas do dia a dia que antes considerava obvias ou obrigações que todas as mães devem fazer, passei a ver que eram coisas que ela fazia por mim, e constatei que se fosse contar na realidade, essas coisas “boas” constituíam a grande maioria dos momentos do dia a dia da minha vida com ela.

Mesmo assim, mesmo tendo “re-significado” o sentimento ou a impressão geral que tinha sobre minha infância e a imagem perversa que tinha de minha mãe, ainda era uma impressão geral frágil, uma lembrança do clima reinante, e da imagem da família, antes problemática, agora uma família em que reinava o carinho, com poucos momentos de conflitos, mesmo assim, ainda eram “impressões gerais” sentia o clima, mas via poucas cenas e detalhes.

Era muito difícil expressar (principalmente em japonês) a cada hora que vinha a entrevista, pois não tinha muitas cenas para contar e exemplificar aquilo que estava percebendo,  o sentimento presente na memoria não dava para colocar em palavras, talvez até seria um tanto mais fácil se fosse em português.

Acho que foi somente a partir do 4º dia quando me pesquisava sobre minha irmã mais velha, tentando me concentrar e visualizar a pessoa dela, o que ela fazia, o quarto em que ela dormia, como eram nossas conversas, do que ela gostava, com muita dificuldade pois parece que eu “sabia que ela existia, mas eu não a via” não sabia nada sobre ela, até que em um momento me surgiu uma cena, eu devia ter entre 5 a 6 anos de idade, minha mãe me batia nas pernas com um o fio do ferro de passar roupa e minha irmã entrou na minha frente e recebeu em suas pernas, uma das lambadas direcionadas a mim, me surgiu uma forte impressão do sentimento de alivio daquela lambada que eu não tomei, ela tomou por mim, para me defender. O sentimento de gratidão tomou conta de mim neste momento.

Lembrei dos detalhes da cena e da contrariedade que eu causei a minha mãe para desencadear aquelas lambadas: “Eu havia entrado no quarto dela e bagunçado suas coisas, suas maquiagens, lambuzado o espelho com seu batom, neste momento ela chegou e ao me flagrar naquela cena correu atrás de mim com o ferro de passar roupa e ao me encurralar num canto da parede minha irmã entrou na frente e me defendeu”.

A partir dai, parece que entrei numa 「outra dimensão do pesquisar」, e ao voltar a pesquisar sobre minha mãe foram surgindo cenas, uma após outra: Lembrei  da cena e do sentimento reconfortante de dormir segurando no pé de minha mãe ( 3 a 4 anos de idade), do sentimento gostoso da agua quente e de suas mãos massageando minha cabeça enquanto ela lavava meus cabelos (4 a 5 anos), o desespero e a insegurança que senti ao acordar um dia e não a encontrar (4 a 5 anos) e nesta mesma cena, o reconforto que senti soluçando abraçado a ela quando ela veio correndo me encontrar,,, e varias outras cenas.

Interessante observar a maneira como essas cenas me apareceram, era como se eu estivesse me assistindo e me sentindo na cena ao mesmo tempo “eu era o ator e o espectador” .

2.3.2 – Ao terminar o curso:
Fiquei com um sentimento que existe um mundo interno desconhecido a ser explorado sobre o ponto de vista das 3 perguntas.Tive a sensação que o tempo foi curto, ou mal aproveitado por mim.Desejo de encontrar com minha mãe e minhas irmãs e conversar com elas sobre nós, sobre nossa família e nossa historia em comum.Existem varias perguntas que gostaria de fazer a elas. Lembrança de varias pessoas que gostaria que fizessem o curso.

2.3.3 – Pessoas sobre as quais me pesquisei:
na seguinte sequencia: Minha Mãe; Meu Pai; Minha Tia Lola; Alam Minowa;
Nobuya Koide; Minha Irmã mais velha; Minha mãe (2ª vez).

3 – Coisas que gostaria de examinar mais:
Pretendo praticar o Naikan no dia a dia, ainda não sei como fazer, mas pretendo experimentar.

Oportunamente pretendo fazer novamente o Naikan intensivo e me pesquisar com essa「outra dimensão do pesquisar」que experimentei neste Naikan, em relação as pessoas significativas de minha vida e inclusive sobre outros pontos de vista por exemplo: 「mentiras e furtos」.

Gostaria de examinar com calma e tempo, os pontos de “vácuo”  de memoria que percebi dessa vez

4 – Relato de observações sobre fora de mim:.

4.1 – Sobre os outros participantes:
Percebi que no quarto ao meu lado uma pessoa pesquisava sobre o ponto de vista das mentiras e furtos, fiquei com vontade de fazer minha pesquisa também sobre esse ponto de vista também.

Em alguns momentos ouvíamos gravações de participantes de outros Naikans, que faziam pesquisa a semana toda apenas sobre sua mãe, fiquei impressionado com o nível de detalhes de alguns depoimentos, pessoas que dividiam a pesquisa de ano a ano e até de 6 em 6 meses, descrevendo minunciosamente detalhes das cenas e sentimentos.

Fiquei curioso e me questiono se eu (ou minha memoria) poderia chegar a esse nível, mesmo fazendo Naikan repetidamente por muitas vezes.

Interpretei alguns desses depoimentos como se os depoentes tivessem com sentimentos de ressentimentos ou auto-culpa, remorso em relação aos  problemas e dificuldades que haviam causado a outras pessoas. No meu caso, por enquanto, não vejo como, nem desejo que esse tipo de sentimento surja em mim.

Os depoimentos das gravações, em sua maioria, eram num tipo de linguagem japonesa com a qual eu não estou bem familiarizado, e tive dificuldade em entender, mas a parte que consegui entender, me ajudou a formar uma noção sobre o método do Naikan.

4.2 – Sobre o período, instalações, estrutura e alimentação do curso:

O horário de acordar diariamente foi as 5:30h e o horário de dormir as 21:00h, as refeições eram 3 vezes: 6:30h, 11:30h e 18:30h, o banho era a partir das 16:30h com 20 minutos para cada participante.

Não houve contato direto nem conversas entre os participantes durante todo o período do curso, os únicos diálogos eram com o entrevistador/ouvinte.

A duração do curso, embora eu tenha ficado com a impressão de que aproveitei mal, acho que foi adequado, penso que seria muito estafante, difícil de manter a concentração, se fosse maior que isso, sobretudo para iniciantes como eu.

As instalações são ajustadas a cultura japonesa, e adequadas a proposta do curso, acho importante o biombo para manter a concentração através do foco visual, acho que me sentiria mais confortável se tivesse sentado numa cadeira mais elevada em relação ao nível do chão, senti dor nos ombros e joelhos, por outro lado, esse desconforto físico me ajudou a não pegar no sono.

A alimentação estava perfeitamente ajustadas as minhas necessidades,

4.3 – Sobre a maneira de conduzir e o método e do curso:

O entrevistador/ouvinte permaneceu todo o tempo neutro, se restringindo rigorosamente a perguntar sobre a pesquisa com as 3 perguntas, sem comentários ou orientações, essa postura, foi muito importante para me despertar minhas próprias forças na pesquisa, sabia que não viria nada dele (embora cheguei a desejar ajuda em alguns momentos), por outro lado, percebi surgir em mim um desejo (não confessado) de confirmação se eu estava no caminho certo, em outros momentos percebi surgir em mim, a tentativa de interpretar as expressões faciais dele, as vezes me deixava levar por alguns segundos pela minha interpretação de que ele estaria  com expressão de reprovação tipo: ”só isso que você consegue enxergar??” foi interessante perceber que surgia em mim esse tipo de interpretação que também observei presente em minha vida de relacionamento com meu pai, mas acho que consegui rapidamente deixar essas interpretações e voltar a pesquisa.

Nos momentos de muito sono, me levantava e mexia o corpo, isso ajudou bastante a continuar pesquisando.

O método me pareceu surpreendentemente eficaz para o autoconhecimento,  sobretudo considerando sua simplicidade, mas, baseado na minha experiência que exigiu bastante esforço e perseverança na concentração, imagino que é necessário uma forte intensão do participante em pesquisar, acho que pessoas com vontade fraca em pesquisar, não conseguem avançar muito, penso isso baseado na imagem que tenho de brasileiros.

Um duvida que tenho: será que não seria mais leve fazer a pesquisa da frente para traz, ou “ir desenrolando o rolo da fita da memoria” do presente voltando ao passado, ou seja, começando pelo recente mais próximo (mais fácil de lembrar) para o passado distante (mais difícil de lembrar)?

5 – Sobre esse relato:

5.1 – Objetivo:

Esse relato teve como objetivo organizar os pensamentos percepções, reflexões e observações que fiz durante o Naikan e também servir de material útil para aperfeiçoamento do curso, visando principalmente a montagem de futuros cursos dessa natureza no Brasil.

Tive a intensão de construir um texto organizando, separando e classificando os pontos que percebi e redigi-lo de forma didática para que mesmo pessoas não familiarizadas com essa abordagem possam compreender.

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