Diário de quarentena, ep.1

eu e Rafael numa precária disputa de rimas, Pedro assistindo. André tirou a foto.

Desde março, estou ficando direto em casa, por causa da quarentena. Continuo tendo aulas pela internet, mas interrompi o trabalho. Por isso, estou tendo bastante folga para bolar os dias do jeito que eu quero e também com tempo para refletir. Aqui em casa estamos convivendo intensamente, eu o Rafael e o Pedro. Pela primeira vez conseguimos realizar nosso plano inicial de fazer as refeições juntos, a faxina juntos (que antes era feita por uma faxineira), conversar com calma e descontrair.

Antes da quarentena, estava saindo com o André, que veio então passar um tempo comigo aqui em casa. Ao receber mais uma pessoa, nos desorganizamos de novo. Passamos a nos dividir em duplas, eu com André e Pedro com Rafael, e o clima ficou pouco amigável. De início pensei que os meus companheiros de casa estavam indispostos comigo porque deixei de fazer as coisas que costumava fazer para dar atenção ao André. Realmente isso incomodou, mas, olhando agora, meu ponto de vista é o de que essa separação em duplas foi o maior incômodo. Para mim também foi, porque me senti mediando a relação da “visita” com os “moradores”, foi desgastante. A partir do momento em que fizemos essa divisão interna, ela só aumentou, porque uma dupla se sentia atacada pela outra e vice versa. Eu tinha um aliado e dois inimigos. Nesse clima, as reuniões foram super conturbadas, ninguém se entendia.

Para mim, deveríamos começar a falar dos nossos sentimentos para que alguma coisa começasse a fazer sentido. Mas isso foi recebido como algo invasivo e forçado. Falei que estava sobrecarregada em fazer essa mediação; parecia que tinha que estar sempre atenta para agradar a todos, ou melhor, para não desagradar ninguém. Ao falar isso, o clima melhorou um pouco. Então seguimos. Até que, depois de 2 meses na casa, achamos melhor o André ir embora. Quando fizemos a reunião de balanço da estadia dele, descobri que tanto o Pedro quanto o Rafael não gostaram nem um pouco do André. Estavam o tempo todo disfarçando, tentando ser legal, e por isso ficaram muito cansados também. Depois desse episódio nos unimos ainda mais e melhor. Passei a fazer as tarefas da casa e dar atenção a eles com prazer e não mais por obrigação.

Esse foi o relato, mas o que eu queria mesmo escrever, para pensarmos juntos, é sobre “conversar” e “fazer grupo”.

Sobre o conversar, percebi que para falar do sentimento é preciso ter um ambiente adequado. Eu estava ignorando isso e querendo que eles falassem de qualquer maneira. Quando se sentiram à vontade, após a saída do André, não precisei mais pedir que falassem de si, porque já estavam fazendo isso espontaneamente. Também não sentimos necessidade de fazer reunião, porque estamos conseguindo decidir e falar o que precisa, sem cerimônias. Até um tema “tabu” (que deu briga em reunião), que era sair de casa para ver um date, foi falado tranquilamente no almoço. O que possibilitou/impediu que esse ambiente se formasse? Penso que foi isso que estou chamando de “fazer grupo”, que estou sentindo aqui, mas não sei muito bem o que é. Acho que tem a ver com o seguinte: me senti grata por eles terem “aguentado” o André por minha causa, então tenho feito comidas bem caprichadas para retribuir. Ao comerem, ficam felizes e querem retribuir também. Estamos nesse ciclo de presenteio mútuo. Será que é isso que cria o grupo?

Uma resposta para “Diário de quarentena, ep.1”

  1. Gostei muito do texto, por que ele faz um questionamento muito valido quando se vive em grupo, que é a harmonia. Nem todos estão dispostos a deixar seu ego para mergulhar no coletivo e, ao final, se não é possivel se misturar, vira óleo em água e é naturalmente expulso. Porém isso acaba virando tabu, pois costumamos achar que é possível misturar materiais de densidade diferentes. Me deu alívio ver o desfecho. Legal, gostei muito do texto.

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