4° encontro – Jornada da Escuta

escutar/ auscultar

hoje eu lembrei do meu naikan ao pensar sobre a diferença desses 2 verbos. qual seria a qualidade que cada um tem que os fazem ser distintos um do outro. um momento antes do naikan eu fiquei preocupada de não conseguir lembrar dos acontecimentos da minha infância, pq minha memória é mto forte qdo se trata de localização geográfica, espacialidades, percursos… materialidades em seus extremos detalhes, mas quase vaga para relações entre pessoas.
só que lá eu tive uma experiência mto legal de ir vasculhando o conteúdo da memória, a partir da concretude do que aparecia, principalmente da memória geográfica, fiz vários mapas o que me ajudou mto. e fui observando as várias coisas que apareciam juntas…. emoções, pensamentos, uma espécie de criação “fabular” que surgiram depois de tal acontecimento, às vezes anos depois, algo do tipo: a memória da memória, só que um pouco distorcida, que não tinha a ver com o acontecimento em si, mas que estava ali operante.
as perguntas do naikan recortavam o meu olhar e me conduziam para ver o “real” do acontecimento. e isso era um fato, qdo eu localizava o acontecimento internamente era real, não tinha imaginação, emoção, e nada, era um: “ah, foi isso então” “ah, lembrei disso!”. e a sensação era diferente de lembra de um fato, ou, de lembrar de uma memória que eu tinha do fato. tinha algo lá dentro de mim, só precisava observar com calma.

e isso, a distinção das imagens internas que tive no naikan, me fez pensar que tem algo próximo com o sentido de “auscultar”. a imagem de auscultar que me vem de cara é de um médico ouvindo os pulmões de um paciente, e isso me trás uma imagem de que tem que aproximar os ouvidos do peito e observar com calma algo de lá de dentro, ouvir, com audição, perceber vibrações que chegam pelo contato orelha-caixa-torácica. só assim dá pra identificar o que cada coisa de lá de dentro tá fazendo. o pulsar do coração é diferente da contração e expansão do pulmão, apesar de estarem próximos não são a mesma coisa, não emitem o mesmo som, mas para diferenciar essa percepção do que se ausculta é preciso limpar os ruídos, é necessário saber algo da natureza desses órgãos internos, é necessário se aproximar. como no naikan, se aproximar, fazer uns mapas, lembrar da roupa que usava, deixar vir as memórias… isso exige tempo. é um demorar-se para que coisa se revele.

agora “escutar” pra mim tem essa dimensão de uma certa distância, de ser algo que capto de longe, de coisas que já foram processadas internamente e ganharam a extensão da voz e chegam até meus ouvidos. e assim como auscultar um órgão interno é preciso saber distinguir os ruídos, acho que tem algo de escutar/auscultar uma pessoa que é saber distinguir o que o que está sendo falado do que sinto qdo ouço.

no encontro de sábado eu fui falando que quando estou insegura e ansiosa (às vezes ansiosa pq insegura) não consigo parar pra escutar as pessoas. muito menos auscultar. não só as pessoas, mas a mim mesma. de não saber o que quero dizer qdo puxo um papo sobre se vai chover hj. de não dar o tempo pra “ouvir longo”. de se ouvir lá… internamente… o que quer de coração dizer, antes de chegar na voz falada. mas o que parece que é mais fácil é ganhar distância, e ir ganhando distância, e mais distância até que o som não chegue aos ouvidos, tanto o som da voz do outro, qto do próprio coração pulsando. pq se chega gera mais ansiedade, então é melhor que o processo seja interrompido no seu princípio. assim mais ou menos como na fala, vai parando de falar, de expressar.

esse texto foi um esmiuçar de imagens e palavras que surgiram aqui dentro de mim com o encontro de sábado sobre o que é/como é escutar e auscultar. como explanação textual quis olhar do zero pras palavras e ir fazendo analogias com os sentidos que carrego aqui dentro, MAS o que fica mesmo do encontro, além das palavras, além da fala e da escuta é um: tamo junto, galera! foi lindo o compartilhar de tela com a Mari, a Sandra, o Itamar, o Milton, o Romeu, a Sheila, a Ana, e o Álvaro. essa sensação ficou e tem reverberado aqui.




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