Relato “Curso Para Conhecer a Si ” – 2020.8.15

Meu coração está muito calmo agora e estou sorrindo.
É como se uma longa e longa batalha tivesse terminado, com o peso e a dureza nos ombros completamente removidos.

Ao longo desses 5 dias, pude perceber os enormes pensamentos meus que vim cultivando ao longo da minha vida. Esse foi um tempo em que as minhas perspectivas mudaram, eu fui conseguindo enxergar as minhas próprias perspectivas (a minha própria maneira de enxergar).

Na noite do 4º dia, tive a oportunidade ter uma conversa bem tranquila e consistente e de perto com meu amigo que estava compartilhando o curso.
Neste momento, o Ban me disse estava reagindo a mim ( a minhas colocações).

No início do curso, havia um tema de pesquisa sobre os “sentidos”.
Costumeiramente dizemos: “Essa água é quente”, mas, na verdade, a água em si não é nem quente nem fria, ela é apenas “a coisa em si”. O conteúdo da pesquisa era de que a sensação de “quente” que eu sentia foi colada na “coisa em si” e factualizamos como se “a coisa em si = quente“.

Neste período, eu estava vivendo com uma “consciência” de que deveria evitar em não tomar como se fossem iguais a “coisa em si ” e a “minha cognição (percepção, reconhecimento)”. Ele estava dizendo que também iria experimentar viver com a consciência de tentar sentir a “coisa em si” como ela é.

Conforme o curso avançava, eu estava reagindo aos movimentos corporais de meu companheiro na sua pesquisa.
Do meu ponto de vista, ele não parecia se concentrar nas suas percepções, ele priorizava os achismos, ele ficava balançando demais a cadeira que estava sentado.

E então, de repente, disse ao meu companheiro: “Companheiro Ban, que tal você sentir mais?”

Voltando à noite do quarto dia, Ban me contou que sentiu estranheza/mal estar com minhas palavras quando disse: “que tal você sentir mais?”. Ele disse que se sentia como se estivesse forçando meu pensamentos. Quando ouvi as palavras, tive uma reação. Parecia que ele pôs o dedo na minha ferida.

Haviam surgido emoções negativas em nós dois de ambas partes, mas decidimos aprofundar nossa pesquisa naquela noite, por que eles tivemos tais reações, o que será que estava acontecendo.
O fato de a reação estar aparecendo não significa que essa pessoa seja má, e porque haviam em ambos o entendimento de que havia o semente em cada um nas suas próprias percepções e pensamentos, assim pudemos conversar numa relação horizontal.
Foi a primeira vez que tive uma conversa assim.

Tomamos como indicativo as reações que apareceram, mergulhamos para explorar na escuridão da inconsciência

Então, comecei enxergar as seguintes coisas.
Eu estava acreditando que a “minha cognição”( a minha percepção) que tenho em relação ao Ban é o “Ban real”, algo assim em relação ao Ban [ um cara que não consegue perceber/sentir = Ban ]
Por trás disso estava minha certeza (o que é o correto): “Agora é hora de sentir”. E entendi que que eu estava transmitindo, tentando empurrar ( impor), dizendo a ele “Que tal, você deveria sentir isso, não ?”

Surgiu um questionamento em mim, porque será que tenho tanta certeza de que os meus pensamento são corretos?
Sem que ninguém tivesse pedido meus conselhos, me convenço(acredito) que os meu pensamentos são corretos e eu estava pensando: “É claro, é assim, tem que fazer assim”.

Passei a enxergar o meu próprio padrão que interpreta o mundo à minha própria maneira e transforma em algo absoluto, as ideias que dele surgem daí.
Por que existem esses padrões? 

O que havia era a “auto-confiança”.
Eu me percebi que há um forte senso de auto-confiança em meus pensamentos.

Mergulhei mais fundo. ‥
Por que será que tenho tanta auto confiança em seus pensamentos? ‥
Havia aí, algo que eu vim agarrando (segurando) há muito tempo.
Apareceu a verdadeira identidade do que fez com que me tornasse tão fixo, estreito e
O que tornou o mundo rígido, estreito e rigoroso.

Havia um pensamento de “quero ser um ser especial”, “uma pessoa em excelencia.
Entendi que havia dentro de mim, um sentimento muito forte de que eu “tenho que ser especial”.
Percebi que estava num estado de vigilância permanente, observando se eu era melhor do que outra pessoa.

Penso que estava coletando muitas evidências para provar que sou especial ao longo da minha vida. Acho que estava gastando bastante energia atuando num jogo de superioridade/inferioridade que eu mesmo criei. Também sinto que isso foi o responsável pela maioria dos princípios das minhas ações.

Eu estava me apegando/agarrado a esse “eu especial” e estava aumentando gradativamente o seu tamanho.
Isso era tão poderoso que isso era como se fosse o “eu a coisa em si”.
E era sensível e reagia fortemente qualquer coisa que o ameaçasse.

Mergulhando cada vez mais fundo.

Por que você estou pensando “tenho que ser especial”?
Aí havia instalado um forte desejo de querer agradar a minha mãe.

E por trás dele estava a memória de que minha mãe me criou sacrificando muito a sua própria vida.
Então, eu queria atender às expectativas de minha mãe e agradá-la.

No entanto, aqui vem a perspectiva de “qual é o fato e como ele realmente é”.
Eu queria corresponder às expectativas da minha mãe, que me criou sacrificando a sua vida, mas na realidade, essa memória era apenas uma cognição minha. Eu havia apreendido como uma expectativa dela, o sentimento puro de mãe.

Comecei enxergar vários mundos eu criei nas minhas profundezas.
Ao chegar nesse ponto, eu fico triste. Muito triste.

A questão do relacionamento com a minha mãe, vou levar como tarefa de casa para e penso em encarar frente a frente.

Com a postura de “como será na realidade? qual é o fato?”, comecei a me enxergar aos poucos a mim mesmo.
O mundo muda a cada momento e eu também continuo mudando. Nessas circunstâncias, agarrar/apegar a algumas idéias e valores parece não natural, como se estivesse tentando bloqueiar o fluxo natural do rio.

Porém, tenho o desejo de colocar o mundo em um certo sentido de valores e percepções, e buscar um produto completo/acabado de “querer compreender”. Mas também sinto que isso intimamente ligado com o sentimento de “quero ser algo especial”.

Quero viver livremente, sob a ótica de “como será a realidade, qual é o fato”, cuidando e dando importância a postura humilde de “não sei, não entendo”. Dessa forma, quero eliminar a nebulosidade que está inconsciente e olhar ao redor do mundo com lentes cristalinas e transparentes.

Foi muito bom conhecer um lugar tão maravilhoso. Obrigado.

by Soichi Miyahara

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Impressões do curso conhecer a si [08/05/2020]

Pesquisar como será que eh, como será que estou a partir da conversa crua

Talvez até agora participando dos cursos, reuniões de pesquisa, pesquisando o eu, ao falar as coisas que eu vi sobre mim estava falando com a intenção de ser transparente, falando as coisas assim como as vejo. Entretanto, percebi que vinha falando a partir de concluir os raciocínios, falando soh as coisas que acho que posso falar, falando de maneira que as outras pessoas passem a rir, falando sobre as reações que já se acalmaram, etc etc. Praticamente não vinha falando como realmente estou naquele momento de maneira transparente. Desta vez pensei em fazer o curso falando de maneira mais aberta e sincera possível. 

Durante a pesquisa do tema das reações, ao ir falando as coisas conforme elas vinham em mente em um momento surgiu um pensamento que eu fiquei com vontade de esconder. Tentei falar ele da maneira que estava e ao falar reagi a minha fala ficando com um sentimento forte de insegurança: vixe falei de mais. Fiquei com vontade de esconder esse meu sentimento, resolvi falar sobre isso e meu sentimento acabou acalmando, terminou o dia de pesquisa e fui dormir. 

No dia seguinte, o que aconteceu no dia anterior ainda estava na cabeça, fui falando desse meu estado e senti que aos poucos fui voltando ao estado normal. Sobre isso pensei que: falar após concluir o pensamento ou, falar de maneira que as outras pessoas riam; acho que eh um mecanismo onde fico julgando o que acontece dentro de mim pensando o que pode ser dito, o que vão pensar sobre o que eu falar, parece que estou fazendo com uma série de preocupações. Acho que eu não venho aceitando o eu como ele eh, nao venho aceitando meu estado como está. 

Entretanto todos esses julgamentos são feitos com base nos meus próprios parâmetros: isso é bom, aquilo é ruim; ou seja, nao tem relacao com que a outra pessoa vai pensar, ou mais ainda, não tem relação nenhuma com a realidade. 

O quero eu quero fazer é estar sempre em um estado de felicidade e diversão. Se a outra pessoa pensar mal de mim, meu estado real nao vai piorar ou, se a pessoa pensar bem sobre mim meu estado real também ao vai melhorar, tanto faz o que as pessoas pensam. 

Se ficar pensando: isso é difícil de falar, ou isso eh facil de falar, são apenas julgamentos baseados em pensamentos que eu mesmo crio sem muita base. Acho que eh um processo de auto sabotagem que leva a esses sentimentos de insegurança. Acho que esse lugar de pesquisa está relacionado ao verdadeiro estado de segurança. 

Um dia a dia pesquisando o por que não está realizando o ideal

Ultimamente tem tido reações de insatisfação quando as pessoas não vêm ao trabalho de acordo com o planejamento. Diante disso tenho tentado olhar para meus sentimentos, desejos, como quero que aconteça, mas nao tenho me perguntado seriamente: como será que estou agora? como será que estou captando as coisas? Qual minha visão a respeito do planejamento? como vejo cada pessoa que trabalha comigo? qual minha visão de trabalho? Qual minha visão de ser humano? Tentando esperar que o ideal se realize de alguma maneira, porém sem pesquisar essas questões.

As vezes fico procurando o porque de algumas coisas não darem certo na prática, o que poderia estar atrapalhando. Penso coisas como: se fizer assim vai acontecer assado. Os olhos vão procurando soluções para os problemas nas coisas práticas, procurando a origem dos problemas nas coisas de fora, mas sem olhar para o meu estado interno: o que eu estou vendo como problema? Acho que posso fazer o quanto quiser assim, porém ao olhar para as pessoas penso que a pessoa deve fazer assim, ela tem obrigação de fazer tal coisa; enquanto estiver vendo as pessoas assim acho impossível realizar o desejo original. Mas acho que se procurar a origem desses sentimentos de insatisfação acho que é possível achar a causa e seguir em frente. 

Notas:
3.1 Visões de ser humano que percebi no meu inconsciente:
– homem tem que ser forte, não pode pedir carinho das pessoas;
– durante o trabalho o que eu falar as pessoas tem que ouvir e fazer da maneira como falei;
– se eu não fizer assim ou assado, o sentimento dela muda e ela vai gostar de outra pessoa;
– eu tenho que fazer a coisa acontecer por mim mesmo (responsabilidade);

3.2 As frases mais legais que escrevi durante o diário do curso
– Eu que ouvi assim, eu que captei assim. Mas, por que ela falou assim que eu ouvi como ouvi.
– As características que eu vejo de um objeto e esse objeto em si são coisas duas conversas diferente, são elementos de matéria diferente. 
– Se pensarem bem ou mal de mim, não muda meu estado real.
– Os 525.600 segundos vividos cada um em sua total realidade durante um ano, às vezes sobram na memória como apenas uma frase jogada: aquele foi um ano triste.
– De repente se cria na cabeça um pensamento como: eu devo conseguir fazer. Ao conversar percebo esse pensamento. Ao perceber esse pensamento me liberto.
– Se eu puder olhar e mostrar como está meu sentimento de insegurança da maneira como ele eh, na mesma hora que vejo ele assim, ele já se acalma.
– Tudo bem falar durante o curso: agora não estava pensando no tema.
– Quando penso: isso eu sei, isso eu conheço. O que estou tentando defender?
– Tem muita confiança no meu pensamento: se fizer assim, vai dar tal resultado.
– Quem tem confiança, não tem autonomia (liberdade).
– Vejo: coisa emprestada que tem que ser devolvida; coisa que tem que ser paga; pessoa que deve fazer tal coisa.
– Como dou importância para as aparências, vou tentando fazer as coisas pela forma. Por isso não mostro a verdade, não pesquiso a verdade, por isso não consegue a relação de verdade.
– Hoje o dia ta muito bonito para esquentar a cabeça. 

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conhecer a sí – julho 2018 – impressões Pedro Mendes

Ser humano original, a partir da essência
Essencial – a partir de um estado que não precisa se apegar aos próprios pensamentos, no sentido de ter que acreditar neles (ou ter a auto -consciência que são só pensamentos originarios de percepções própria da “realidade”). Ser humano sem precisar ser auto-confiante (confiar nas percepções como se fosse o fato/ ou desconfiar como se fosse real). Ser humano que não precisa de “eu estou certo”, brotando uma autenticidade naturalmente curiosa no “Como será da Verdade?”

original sem certo e errado, gosto e não gosto… antes disso… sem precisar dar significado e ressignificar (ele fez isto que não gosto mas tem isto que é uma pessoa legal… substituindo significador) – ser humano original – anterior, na origem, sem precisar definir, conectado com o que surge a partir de dentro sem desvios devido a fatores externos e ficções internas.

Através da árvore bonita, observo a beleza em mim.
Parece que é o mundo me ajudando a ver o que esta dentro. Não vejo o mundo, mas me vejo através do mundo.
Onde estará a beleza?

Auto- consciencia

Parece algo de seres iluminados, algo inatingível. Mas talvez seja bem mais simples. Somente a consciencia de que na verdade era só o meu pensamento, a minha percepção. A consciência mais profunda da percepção. Depois é como andar de bicicleta…  só ir praticando.

Se eu já sei, tenho a certeza e convicções de que estou certo, de que é isto, se alguém diz algo que vejo como contrário, bem provável de surgir a necessidade de defesas, proteções e ataques. Se eu não tenho a necessidade de já saber,  ter certezas, posso escutar de verdade qualquer opinião e pessoa.

Pesquisar a partir do zero MESMO. Tipo: sem onda sonora, fótons, elétrosn, cérebro, experiências passadas, histórias, conhecimentos, etc… como será?

“POR UMA SOCIEDADE SEM RESPOSTAS!”

(é assim, isto por causa disto, etc…)

Ser humano origina – estado original – corpo funciona bem, estado original/saudável do corpo
Mente/coração funciona bem – estado original/saudável do coração/ mente – (sentimentos+pensamentos)
—> sem necessidade de inimigos, raiva, angustia, medo psicologico, pressão, bem, mal, etc…   corpo mente /coração “vazio” sem apegos, do zero, onde todas as possibilidades podem surgir/brotar


Antes de tudo, observar como está meu coração/mente

Observar e reconhecer que são meus pensamentos no mundo natural (sem humanos) ou quando estou só é mais fácil. Mas quando é algo que tem mais importancia (me importa e toca mais) que alguém fala, ainda tenho dificuldade de reconhecer/perceber que é eu que escuto. “A pessoa falou” ainda é bem forte.


“Meu pai ainda vive….  em mim e dissolvido na realidade!”


Um outro ponto que pensei que “não posso” foi o beijar uma mulher a força. Talvez nisso tenha um medo tão grande de achar que vou ferir, que é algo muito errado e invasivo. Parece que isto grudou com expressar sentimentos, onde se tem medo de qualquer coisa…     bom ver isto!

Muitas coisas mais… mas depois completo

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Conhecer a si (relato)

A leitura no final falou sobre conhecer como algo que vai além do ter na cabeça, na ração, mas um abraçar com a psique toda, incorporar ao ser e colocar em prática, pelo que entendi.

E foi isso que, não à toa, me pareceu ser o foco do curso.

Tive a impressão de que retomamos os mesmo assuntos e aspectos do seminário, mas, partindo de um ponto mais avançado, pudemos nos aprofundar, investigndo melhor as nossas respostas automáticas e como a “factualização” (o tratar pensamento como fato) está presente nas nossas vidas e molda nossas reações.

Eu estudo Comunicação Não-Violenta (CNV) há muito tempo, e o que eu vi neste curso me ajudou a compreender o quanto nossos pensamntos influenciam a nossa percepção de necessidades atendidas ou não, algo que ouvi algumas vezes em cursos e vivências focados em CNV, mas, apesar de ter entendido, não havia “conhecido” – nesse sentido mais profundo do entender além da razão e da lógica só. É algo que, ao meu ver, é pouco abordado, e creio que isso seja decorrente precisamente da dificuldade de compreender de verdade essa ideia. Para exemplificar essa dificuldade, estou aqui só começando a captar o significado disso após sete anos estudando CNV e depois de dois cursos imersivos de uma semana cada…

Estou me sentindo como se tivesse encontrado mais uma pecinha para testar nas minhas engrenagens e estou muito feliz por isso.

O difícil, na verdade, não é entender o conceito, mas aceitá-lo de todo o coração e me interessar por investigar sua aplicação prática depois de 37 anos de factualização.

Olhar para isso, no entanto, me abriu para um novo universo e me trouxe mais esperança de conseguir estar no mundo mais do jeito que gostaria de estar.

Consegui ver como, sem perceber, estava concentrando meus esforços nas minhas reações emocionais, depois de elas já terem ocorrido, ao invés de olhar para os pensamentos de onde elas partiam e, principalmente, buscar a consciência de que eram apenas meus pensamentos – e não a verdade.

E que isso, além de desgastante, é um trabalho interminável. Era como se eu tivesse construído um castelo no ar e, percebendo que ele estava no ar, eu quisesse desconstruí-lo, mas, ainda apegada a ele, sem coragem de desmontá-lo, eu colocava ainda mais pedras sobre ele, na esperança de que, assim, ele virasse outra coisa.

Ao invés de olhar para as minhas convicções e lembrar que eram apenas a minha percepção, eu estava tentando não tê-las; ao invés de buscar perceber a ilusão em coisas como o capitalismo, eu estava tentando lutar contra elas (reforçando a ideia de que sejam reais); ao invés de tentar lembrar que a maldade que eu via estava na minha percepção, eu tentava aceitar a pessoa que eu via como má.

Que libertadora a possibilidade de olhar para o jogo e lembrar que é só isso que ele é. Um jogo.

Entendi como, aparentemente, é em momentos em que tendo a responder rapidamente que a factualização ocorre com mais frequência e encontro maior dificuldade de identificar isso. E que, além do hábito ou quando há um aspecto prático envolvido, é nas ocasiões me que sinto medo que isso mais costuma ocorrer.

Ao compreender isso, tive a chance de mregulhar mais fundo e pesquisar: “por que será que isso acontece?”

E o que me parece agora é que a urgência de reação que o medo traz, mais do que me privaar de tempo para pensar, me trazia a percepção de que só havia um aforma possível de reação que pudesse cuidar das minhas necessidades naquele momento – e que não agir seria não me cuidar, portanto, necessariamente.

Mas separar a minha percepção do que é fato não é deixar de agir. É apenas buscar ter clareza de que a minha percepção não é fato, afinal. Nada me impede de agir para cuidar de mim – é só que essa ação provavelmente partirá de um local de muito mais presença e consciência do que poderia enquanto eu estivesse aceitando como fato a minha percepção. Eu não preciso que o que estou segurando nas mãos seja uma “xícara” que esteja “quente” para que eu sinta dor na minha pele – e solte.

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Relato do “Curso para Conhecer a si”  

A chegada na sexta-feira, dia 30/jun/2018
Sentimentos e pensamentos pululando dentro da minha cabeça cheia.
Ansiedade, expectativa sobre o que virá. Conhecer a si! Como será isso…
muita exposição, vergonha, coragem, honestidade, comparações, necessidades, desejos. O exercício de pensar a partir do zero é muito novo e eu me vejo dialogando entre o “cheio” e o “vazio” o tempo todo. O cheio compreendendo a caótica ebulição dos pensamentos viciosos que estão na minha cabeça e o vazio, a angústia com que o velho pergunta como seria esse mergulho no desconhecido. Matracando comigo:
– O certo é assim; deve ser assim. O certo repousa num solo estéril mas seguro.
Mas, que certo é esse? Será que está me trazendo felicidade?
– Pare de pensar e duvidar! O incerto, esse desconhecido me descontrola, me desequilibra, me sinto como andar sobre areia movediça. Não posso, não consigo, é difícil. Essas são crenças do velho. Quero transformar.

Propostos exercícios e experiências sobre a percepção.
Como percebo um objeto a partir de parâmetros “reais”. Forma, cor, tamanho, material, função, etc…?
Percebo, acompanhada pelo grupo que os “reais” são reconhecimentos e não um conhecimento daquele objeto apresentado como tal, porque existe uma experiência anterior, informações adquiridas e memorizadas; o velho dentro de mim que dialoga com o exercício de conhecer o novo, como pela primeira vez.

Ver

O exercício prossegue e todos do grupo se colocam. Como veem,  sentem, e experienciam aquele objeto, nomeando, descrevendo, adjetivando, acreditando que o objeto “é assim”.
Mas “assim” o vemos. A percepção de que apreendemos a realidade com nosso equipamento sensorial vai sendo constatada. As características de um objeto ou melhor a percepção das características, dizem respeito mais a mim, a cada um, do que ao objeto. O que está fora e o que está dentro da minha cabeça?
Independentemente da minha vontade de lidar com a realidade de forma objetiva, ela passa pelos filtros da minha cabeça. Meu conhecimento se faz através dos meus reconhecimentos. Reconheço que a base de toda a minha percepção vem das minhas experiências anteriores; dos códigos estabelecidos e utilizados e dos reconhecimentos que faço. Às vezes fica claro, às vezes não. Entendo, desentendo, alcanço e perco. Fico confusa. Tento me refugiar…me alheio…fujo…mas volto, porque conheço o meu desejo. Será?

Estar

De novo, outra nova experiência. Uma coisa é uma coisa em determinado lugar, noutro lugar é outra coisa. Sim?? Uma folha de papel, destacada de um bloco de papel, reconhecidamente um pedaço de papel mas que colocada no cesto do lixo, reconhecidamente cesto de lixo, é lixo? É papel? É lixo?
Pensar sobre essas coisas corriqueiras do dia dia trazem muitas reflexões sobre o cabedal de informações, formações, deformações concentradas dentro da minha abundante cachola com que penso o mundo. Penso que esvaziar a cabeça para receber o mundo como nova oportunidade de conhecimento não seja possível. Mas a proposta não é essa, Dona Vivi! É comprender que tudo o que percebo é com a minha cabeça.
Como é que funciona o mecanismo do pensamento humano.

Ouvir

Um fala. Eu ouço o que essa pessoa fala. Eu não posso afirmar: Fulano falou isso. Mas sim”eu ouvi isso”. Eu ouço e interpreto com meu sistema auditivo, com minha cabeça que abrange meus conceitos, experiências, expectativas… Uma relação entre quem fala, o que se ouve e o que se fala.

Percepção versus fato/realidade

Digo que no almoço comi batata com carne. Isso é um fato?
O banheiro fica ali: vira a primeira a direita, depois a esquerda, é ali. Isso é um fato? Nanako não está. Isso é um fato? Um compromisso, com as implicações de acertos de hora e lugar, atrasos ou impedimentos…É um fato?
A percepção sobre algo não é um fato. É uma lembrança, um reconhecimento, uma interpretação, um julgamento, uma ficção.
Quando tomo, uma percepção, um pensamento como fato podem surgir reações instáveis de humor como inquietação, raiva, frustração… em geral derivando para a classificação dos envolvidos na relação como vítimas e culpados.

Tarefa: Se observar como está vendo e ouvindo e como está reagindo

Nas situações em que me observei notei que reagi automaticamente.
Por exemplo: Durante uma conversa emiti uma opinião sobre um assunto que estava rolando. Uma pessoa do grupo, a Marceline me disse assim: “Não tire conclusões precipitadas” Eu pensei: ela me deu uma bronca! Daí eu entendi que recebi a fala dela como uma crítica, como uma ordem, mais um mandato:  “Você não deve reagir impulsivamente e muito menos tirar conclusões precipitadas”. Eu acreditei que foi assim que ela falou.
Posso colocar atenção para estar no presente e não misturar meus condicionamentos, interpretações a um fato. Uma captação objetiva!? Minha captação é sempre subjetiva, sou eu que capto. Factualizando minha percepção, tornando minha percepção fato, vem raiva, atrito, diferenças, animosidades.
Mas pesquisando dentro de mim as histórias de inadequações, julgamentos e mandatos, conhecendo os fantasmas que se multiplicam e se agigantam na tela da minha mente,  analisando como é o mecanismo dos meus sentimentos/pensamentos, talvez perceba o caminho da auto-consciência, com a consequência de não me afogar nas máguas e ou me queimar na raiva. Podendo vivenciar relações sociais íntimas e saudáveis. Conscientizando para não misturar eu tu e fato no mesmo saco.

A trena, o calendário, as teorias científicas, são fatos?

O pensamento humano tem as possibilidades de criar mecanismos para identificar, rotular, julgar, abstrair, atrair e trair percepções.
O ser humano cria signos e consignas tentando generalizar idéias e conceitos aproximando a percepção da realidade. Seriam formas estabelecidas pelos membros de um grupo, comunidade, cultura… para sintonizar os passos nas linguagens…codificar para facilitar a comunicação, para combinar formas ficcionais de interpretar a realidade de uma forma não esquisofrênica. A trena, o calendário, as teorias científicas são formas de aproximar a nossa percepção da realidade. Mas não são a realidade.

Porque paro no sinal vermelho?

Se não paro, mato ou morro. Aprendi a obedecer sem questionar.

Porque comemoro aniversários

Porque sempre foi assim. Costume.

Porque pago dinheiro no caixa da loja?

Se não pago, não sou justo. Dinheiro: A ficção. Minha família: afeição por essa ficção.
Eu: ainda sonolenta, mas  vislumbrando um panorama pluridimensional.

Por causa  xxx é ooo

A vida inteira escutei que isso acontece por causa daquilo. Se falar mentira cresce o nariz, como o do Pinochio. Se ficar pelada vai ser estuprada. Se pecar, vai  pro inferno; se contar pro padre, pro purgatório.  Se não ganhar dinheiro é um fracassado. Se não estudar não vai ser ninguém na vida. Se não obedecer vai apanhar.
E se não acreditar é melhor fugir.  Sempre fugia. Agora desejo transformar as cristalizações para se desfazerem na fluidez das águas correntes da consciência.

Não posso ficar sem…

fazer nada.
O lixo dos pensamentos e julgamentos: Inútil, aproveitadora, preguiçosa, malandra, safada…Quem não faz nada, pensa besteira…

Não posso deixar de fazer….

a comida
Que mulher você é? Deixar seus filhos com fome, você não tem amor, você não cuida, não ama, não cumpre seu papel de mãe de família, de mulher… Ao mesmo tempo que vem tudo isso vem também o prazer que sinto em transformar as matérias e os estados das coisas. Ao cozinhar me encanto com a cor, a forma, o sabor dos produtos  da natureza que manuseio…e me pergunto de onde veio… numa interação extensa…sou parte…êxtase de estar e ser viva.

Porque dou maior importância à ficção do que à realidade?

Talvez porque confunda uma com outra. Talvez porque me dou muita importância. Talvez porque fui acostumada assim. Talvez porque seja cômodo. Talvez porque tenha que deixar a preguiça de lado para pesquisar e ver as coisas como são de fato.

Será que tenho interesse em examinar como será na realidade?

Tá aumentando. Como tirar água do poço. Ou leite da teta.
Ao examinar, pesquisar de fato, eu me transformo. É a fluidez da água de cachoeira.

Eu sei! Como é que é o eu sei.

É como a água da poça. Parada. Quando digo eu sei: fecho as outras possibilidades.
A partir de percepções e pensamentos, das conversas e informações de outros e com outros pensamentos, eu penso: eu sei. Deduzo uma coisa lá. Um pensamento gerando outro pensamento que retorna depois de reconhecimentos e chega em conclusões.
Faço muito isso: Ah! Eu sei. Parece que me dá segurança a certeza…como se tivesse que me proteger na certeza de que não existam outras possibilidades, que essas outras fossem abalar a minha identidade…montada nesses conceitos que levam àquela certeza.

Será que tenho auto – consciência de que é pensamento humano?

Não tinha. Não sei se tenho. Mas caminhando…
No exercício do Não posso… e Não posso deixar de fazer… ficou claro que pensamentos são ficções. Posso criar os pensamentos que quiser. São minhas construções. Essas construções facilitam, permitem, limitam, dificultam a vida. Se posso criar…posso transformar.

Ter auto-confiança – como é isso em si?

Pensava com a minha cabeça cheia que ter auto – confiança fosse a certeza de que tenho certas capacidades / habilidades e que nas situações de abalo do solo, como nos terremotos eu paro em pé, não caio, sou firme. Acreditar na realidade do meu ser que tem sentimentos e pensamentos próprios. Acreditar o que sou, o que não sou, sem murchar. Agora, esvaziando a cabeça penso que o auto, que se refere a si mesmo está tão impregnado de significados, de cobranças, de permissões e limitações que formam uma carapaça para o conhecer, no sentido de se satisfazer a si mesmo nas bases de si mesmo que foram instauradas pela ficção familiar e cultural para cumprir um script.
E confiança é acreditar nisso.

Pessoa sem auto-confiança – como é isso?

Pensava com a minha cabeça cheia que uma pessoa sem auto-confiança fosse eu mesma, que me inscrevi no curso de conhecer a si, para acreditar mais em mim, para se fortalecer quanto à sua atuação como vivente e não só sobrevivente.
Na medida que as conversas foram avançando eu, perplexa, verifiquei que no método do conhecer a si, a partir do zero, a pessoa sem auto-confiança corresponde à criança pura, aberta, curiosa, sem conceitos e preconceitos que conhece pela boca a realidade, experimentando e explorando a vida com seus sentidos naturais.

Me permito ser a criança idosa que sou.
Virginia Damiani  – Vivi

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