Relato / curso / Conhecer a vida humana / janeiro 2021

A disposição para fazer o curso brotou das reuniões semanais do Zoom quando em novembro de 2020 foi anunciado que Ono viria da Suíça para o Brasil para dar o curso.
Seguiam em reforma o salão de eventos, a construção da ala dos quartos individuais, a adequação do refeitório para acomodar com o devido cuidado e cumprir o protocolo de distanciamento das pessoas

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Eu me inscrevi mas desconfiada pensei: ” isso não vai rolar… tá tão perto…tanta reforma para acabar num prazo tão curto… tem o covid…as pessoas tem medo…EU TENHO MEDO
Felizmente, surpreendentemente, tudo ficou pronto e lindo e o curso começou como previsto, dia 10 de janeiro. A hora combinada de chegada era 13h.
Minha ansiedade atrapalhou. Errei o caminho (meu conhecido de n vezes), me atrasei, me tencionei mas cheguei.


Ono apresentou o programa do curso, fizemos leituras sobre o método Scienz e foi lançada a questão : – Como vamos conhecer a vida humana?
Vamos começar pelas nossas !
Cada participante terá 30 minutos cronometrados para relatar a sua vida.
O primeiro a falar foi o Romeu que descreveu a sua vida de uma forma tão objetiva, em ordem cronológica, contando a sua origem, formação, trabalho, sentimentos, etc. Parecia que estava se vendo “de fora”. Admirei. Em seguida eu apresentei a minha vida.
Meu relato foi emocional, enfatizando o sofrimento, a falta, os aspectos negativos que influenciaram a minha vida. Os demais falaram, contaram. Sem julgamentos nem avaliações. Falando e ouvindo os fatos. Foi emocionante.
Vidas humanas tanto diversas quanto similares.


Na sequência pesquisamos o que é conhecer a vida humana, o que é a vida. O que é viver.
Elencamos várias coisas que recebemos do ambiente como a comida, o abrigo, as roupas, a atenção, tantas coisas que nos chegam e nem nos damos conta. Despertou em mim a gratidão. E continuamos refletindo:
– No percurso da minha vida hoje, porque estou aqui?
Eu estou aqui porque desejei fazer esse curso, estar com as pessoas dessa escola, seguindo esse método.
Explorando o tema, nas falas de todos, vieram tantas facilidades, tantos fatores concorreram para eu estar aqui. Por exemplo a estrada, o veículo utilizado, o condutor do veiculo, os valores que recebi da família, a influência de fatores mesmo os negativos que me orientaram para a escolha desse caminho… Recebi muito. Tive muitas oportunidades. Vivemos recebendo ações das pessoas, usamos coisas feitas por pessoas.
Assim analiso os meus pensamentos. Acredito que sou o que eu penso. Tomo como meu eu real, meus pensamentos, sentimentos, emoções…
Pesquisando… O que sou eu? Eu penso que sou o que penso. E me defino assim. E defino os outros também !?! Será assim?
Tenho consciência dos pensamentos, desejos, emoções, sentimentos meus…? De alguns. Outros estão inconscientes. Este conjunto é formado pelo que recebo do exterior, meio ambiente, que elaboro dentro de mim e então que posso expressar por meio de palavras e ações. Então o que eu tomo por meu, vem do que recebo de fora, do ambiente que consciente e inconscientemente formam meu eu que expresso por palavras e por ações.
Quando tenho consciência disso, sei que não posso conhecer alguém, eu ou outro, só pelas palavras e ações. Onde vive essa pessoa ? Como é o ambiente dela? O que entrou nessa caixinha “eu real” para formar tais ou quais pensamentos, para
atuar assim ou assado…?!?


Para estarmos vivos nos alimentamos de muitas coisas.
Coisas boas ? Coisas ruins ?
O que nos chega do mundo exterior simplesmente nos chega. A coisa em si não nos chega com rótulo de qualidade bom, ruim, bem, mal. Esses conceitos são formados na nossa cabeça, influenciados pelos conceitos e preconceitos advindos das palavras, dos mandatos, das regras daqueles que nos “educaram” que por sua vez receberam de seus pais e assim a história se cria e é passada. Meus avós imigrantes, vieram para o Brasil com uma malinha com poucos pertences e uma grande vontade de trabalhar para ganhar dinheiro e acumular riqueza. Essa era a sensação de segurança que eles tinham e assim passaram para mim, seus valores, suas crenças, seus medos, com o desejo de me poupar, de fazer a minha felicidade. Examinando isso entendo algumas das minhas fixações:
Eu não valho nada ; nunca ganhei dinheiro.
Lazer jamais. Só fazer, fazer, fazer.
Prazer é pecado.
Não confie em ninguém. Desconfie até da sua sombra.
Tudo isso entrou em mim. Não existe nem culpado nem algoz. Existe uma realidade e pensamentos moldados a partir dessa realidade.
Se foco nessas coisas fico vivendo meus conflitos. Colocando energia neles, eles crescem e eu fico amarrada a esses mandatos, a esses conflitos. Se foco nas pessoas dos meus avós, pessoas que tem coração, que “intencionaram” viver de forma harmoniosa, estou focando no desejo original do ser humano, de querer viver relações de bem querer, de amor como seres humanos que são.
Na base do meu coração estão sentimentos de harmonia, de calor humano, de união, de cuidado. Na base do coração deles também. Focalizando a vida, gero mais vida Focalizando a falta, gero mais falta.
A força da vida opera em todas as suas manifestações. Na manifestação vida humana, além de todos os elementos presentes nas outras formas de vida, ( nutrientes, ar, água, luz, etc.) estão aqueles que estão na base do nosso coração como carinho, cuidado, atenção.
Fatores necessários para a formação do ser consciente, que se manifesta como pessoa saudável, satisfeita e feliz.
Viver é um fluxo continuo. Uma força que move o ser para realizar a sua existência. É um sistema de retroalimentação interdependente do meio.
Viver é receber coisas e atos das pessoas e agir pela vida mesma. Dar e receber. Posso me mover pela falta, quando em vez de ver tudo o que recebo, vejo o que falta. Vendo o que falta, reforço aquele meu velho pensamento de miséria que formei com as influências dos avós imigrantes. Então fico presa aí e reforço o padrão da falta. Desvio a força da vida para a miséria e me aprisiono aí. Impedindo meu crescimento.
A vida é. Existe e flui mesmo que eu me tranque no quartinho da falta e restrinja meu movimento.


Para onde olhar? Para a falta ou para a abundância?
Ao olhar para a abundância, observo e penso nas relações e condições naturais da vida. O ar, a água, a matéria dos objetos, o ser humano são vida.
Vida como uma só força que existe pelas próprias condições que organiza, dispõe e fomenta.
Dessa forma, todos somos UM
Como ser humano sentiria a satisfação de viver, tendo tudo o que preciso para viver. Mas ainda vacilo. Entendo mas ainda não me transformei. Existe um equilíbrio que independe da minha vontade, de meus medos, de minhas fixações. Quero ter a consciência e sentir na minha carne que somos UM na vida. Quando penso que a vida é uma com a inteligência, para conhecer o EU no UM, me conforto e posso reconhecer a abundância e perceber que a minha miséria não é real. E só uma construção de um pensamento limitante, alimentado pela insegurança, pelo medo. Se foi construído pode ser desconstruído.
Quero viver na abundância do coração original. E posso.
Essa imersão na proposta desse curso me mostrou isso. Muito agradeço por essa abertura. Por essa possibilidade. Desejo gritar por aí : Somos Um. Multiplicar por aí isso tudo.

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