Dobrar o futon e ir passear

Tem uma série da NHK “10 anos com Hayao Miyazaki” que mostra os bastidores do Studio Ghibli. Mostra vários filmes do Hayao sendo feitos e um do Goro, que é “Da Colina Kokuriko”. A primeira cena do filme era a protagonista acordando e saindo do quarto. Ao ver isso, o Miyazaki pai fala pro filho que se ela é a heroína do filme, então nessa primeira cena ela tem que dobrar o futon. Então a primeira cena é ela acordando, dobrando o futon e saindo do quarto.

Esses dias tenho pensado sobre responsabilidade, disciplina, organização, etc. e lembrei dessa cena porque hoje assisti esse filme. Eu gosto dela por ser bastante singela, um detalhe do cotidiano; mas, ao mesmo tempo, por ser o início do filme, toda a história está contida nessa cena, resume toda a ideia.

Tudo bem, a organização pode ser apenas o fruto de uma educação rígida e as pessoas seguem por obrigação ou no automático “porque é assim que se faz”. Podem até fazer por medo de serem criticadas e para buscar aprovação. Mas não é isso que me interessa. E também não importa se dobrou ou não dobrou o futon.

O que estou pensando é que uma pessoa responsável consegue influenciar mais positivamente e construtivamente o ambiente. Vai ter comida se alguém cozinhar (planejar as receitas, comprar ingredientes, preparar, servir, lavar a louça.. são várias as tarefas do cozinhar), vai ter transporte seguro se o motorista for dirigir sóbrio e descansado, e assim por diante. É possível que as pessoas façam isso porque estão se submetendo às regras do trabalho para ganhar o salário e sobreviver. Mas de qualquer maneira estão sendo responsáveis e úteis pra quem quer comer, se deslocar, etc. Na prática o resultado é esse.

Outra coisa que me intriga é a capacidade de saber (pensar que sabe) o que é melhor e mesmo assim não fazer. Ontem eu preparei uma couve-flor no forno que demorou pra ficar pronta e, quando ficou, pensei “ah, depois eu guardo”. Só que eu não guardei e no dia seguinte estava mofada e tive que jogar tudo no lixo. Eu sabia que tinha que guardar na geladeira, mas ao invés disso fui ver vídeos do Cesar Millan no youtube.

Então fiquei pensando que os cachorros precisam muito passear e dependem dos donos pra isso. Se os donos tiverem a iniciativa, todos os dias eles vão querer passear. Humanos, como eu, todos os dias têm preguiça de fazer exercício. Meu corpixo precisa de movimento tanto quanto eles e, diferente deles, eu posso abrir a porta e ir pra rua caminhar. Mas eu não faço isso, muita gente não faz isso.. não é curioso?

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Check Up 42

Hoje de manhã estava fazendo o arroz na marmitaria. Uma hora o Kenji virou e falou, lava essa panela aí e faz o arroz do sushi.


Primeiro me deu uma reação de antipatia/resistência, mas depois eu pensei tanto faz essa reação e voltei para o estado normal. A partir daí começou a vir na cabeça: no fundo o que serah que ele estava querendo?


Depois de passar mais um tempo ele falou: aprende a ver o horario ai de fazer o arroz por si mesmo que eu não vou ficar falando toda vez isso. Naquela hora o rosto dele ficou vermelho, parecia que ele estava falando algo não muito fácil para ele.


Tem bastante gente na marmitaria que se apoia nele todo dia durante o serviço, fiquei pensando que ele deve ter um sentimento de que as pessoas pensem e consigam realizar o trabalho por si mesmas sem precisar ficar recorrendo a ele toda hora.


Acho que eh meio dificil conseguir realmente saber qual o sentimento dele, mas achei interessante que ao deixar de precisar me proteger um pouco da vontade de tentar conhecer o sentimento da outra pessoa. Se conseguir ir sempre por ai eh bom ein.


Outra conversa


Nesse trabalho de fazer o arroz, tem uma etapa que é esfriar o arroz para ficar a uma temperatura própria para colocar na marmita.


Ao fazer essa tarefa, me veio de repente na cabeça:


To preparando o arroz para alguém; tô preparando a refeição de alguém; aaa to cuidando de alguém!


Eu nao estou trabalhando, estou cuidando das pessoas.


O que existe nao eh trabalho, o que existe é cuidar das pessoas.

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